
Da ascensão do WhatsApp nas eleições de 2018 à influência dos algoritmos, influenciadores e inteligência artificial em 2026, as redes sociais transformaram a disputa pelo voto. Mas será que curtidas, compartilhamentos e vídeos virais realmente decidiram quem chegou à Presidência da República?
Resultado oficial da eleição presidencial de 2026
Lula (PT)
51,79% | 64.256.232 votosFlávio Bolsonaro
(PL) 48,21% | 59.826.041 votosSegundo turno, 25 de outubro de 2026. Totalização divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 26 de outubro.
O resultado de 2026 oferece um ponto de partida particularmente relevante: uma disputa nacional encerrada com diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos, depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro havia recebido percentual superior ao de Lula.
A proximidade do resultado torna legítima a investigação sobre o papel das redes sociais. Contudo, a vitória nas urnas é um fato comprovado; atribuir essa vitória às plataformas digitais exige evidências adicionais.
O artigo abaixo analisa esse fenômeno em profundidade, com dados oficiais, estudos acadêmicos e referências sobre comportamento eleitoral.
A eleição não acontece mais apenas nas urnas
Durante décadas, as eleições brasileiras foram fortemente influenciadas pela televisão, pelo rádio, pelos jornais e pelas estruturas tradicionais dos partidos políticos. O horário eleitoral gratuito representava uma das principais ferramentas para apresentar candidatos e conquistar eleitores.
Essa realidade mudou profundamente.
Com a popularização dos smartphones, a política passou a ocupar os mesmos espaços digitais utilizados para conversar com familiares, acompanhar notícias, assistir a vídeos e consumir entretenimento.
As redes sociais transformaram a comunicação eleitoral em uma atividade permanente. Mesmo fora do período oficial de campanha, candidatos e lideranças políticas podem manter contato direto com milhões de pessoas.
O impacto não se limita à publicidade. Plataformas digitais também influenciam quais assuntos ganham destaque, quais declarações circulam e quais acontecimentos mobilizam a opinião pública.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre influenciar o debate político e determinar o resultado de uma eleição.
As redes sociais podem modificar o ambiente em que as pessoas decidem seu voto, mas isso não significa que sejam responsáveis, isoladamente, pela decisão de cada eleitor.
Para compreender essa relação, é necessário observar como a comunicação digital evoluiu nas últimas eleições presidenciais brasileiras.
Eleições de 2018: o WhatsApp muda a comunicação política
A eleição presidencial de 2018 marcou uma transformação importante na política brasileira.
Jair Bolsonaro construiu uma campanha caracterizada por forte presença nas plataformas digitais, especialmente Facebook, YouTube e WhatsApp.
Com pouco tempo de televisão em comparação com candidatos de grandes coligações, sua comunicação encontrou nas redes uma maneira de alcançar apoiadores e ampliar a circulação de mensagens.
O WhatsApp teve importância particular nesse processo.
Grupos familiares, profissionais e comunitários passaram a compartilhar vídeos, discursos, notícias e conteúdos favoráveis ou contrários aos candidatos.
Uma pesquisa publicada na revista científica Intercom, intitulada Abrindo a caixa preta: análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp, analisou 194.710 mensagens em 21 grupos de apoio a Bolsonaro durante o período eleitoral.
Os pesquisadores identificaram concentração de publicações em determinados participantes, utilização frequente de links de outras plataformas e ações coordenadas de comunicação.
Essas descobertas ajudam a compreender a organização digital de parte do eleitorado.
Contudo, não comprovam que o resultado de 2018 tenha sido determinado exclusivamente pelo WhatsApp.
A conjuntura econômica, a insatisfação com o sistema político, os escândalos de corrupção e a rejeição a partidos tradicionais também integraram o contexto da disputa.
Eleições de 2022: a batalha pela atenção dos eleitores
Em 2022, o ambiente digital já estava consolidado como um dos principais espaços da campanha presidencial.
Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro utilizaram diferentes estratégias para divulgar propostas, responder a adversários e mobilizar apoiadores.
A disputa também envolveu criadores de conteúdo, artistas, jornalistas, lideranças religiosas e influenciadores digitais.
Uma pesquisa publicada em 2025 na Revista Brasileira de Ciência Política, intitulada O uso das mídias sociais nas campanhas eleitorais presidenciais brasileiras em 2018 e 2022, identificou diferenças importantes nos estilos de comunicação.
O estudo observou que Bolsonaro adotou, nas plataformas examinadas, menor frequência de publicações e uma estética mais informal. Lula e Fernando Haddad apresentaram maior frequência e uma comunicação mais profissionalizada.
Os resultados mostram que não existe uma única fórmula de sucesso nas redes sociais.
Campanhas podem buscar engajamento utilizando linguagens diferentes, desde vídeos espontâneos até materiais produzidos por equipes especializadas.
No segundo turno de 2022, Lula venceu com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
A diferença relativamente pequena aumentou o interesse pelo papel da comunicação digital.
Entretanto, medir quantas pessoas efetivamente mudaram de voto por influência das redes continua sendo um desafio científico.
Eleições de 2026: uma nova disputa no ambiente digital
As eleições de 2026 aconteceram em um cenário tecnológico diferente daquele observado em 2018.
Além do WhatsApp e do Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e outras plataformas passaram a fazer parte da rotina de consumo de informações de milhões de brasileiros.
A inteligência artificial também ganhou espaço na produção de textos, imagens, vídeos, áudios e materiais de comunicação.
A disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro foi acompanhada por debates intensos no ambiente digital.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%.
No segundo turno, realizado em 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79%, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
Essa mudança entre os dois turnos constitui um fenômeno relevante para pesquisadores interessados no comportamento eleitoral.
Entretanto, seria precipitado atribuí-la a uma campanha específica nas redes sociais.
Uma eleição pode ser influenciada por debates televisivos, alianças políticas, participação de candidatos eliminados, avaliação do governo, mobilização territorial e mudanças no comparecimento dos eleitores.
As redes sociais participaram do ambiente informativo em que essas decisões ocorreram, mas ainda são necessários estudos para determinar seu efeito causal sobre o resultado de 2026.
O Brasil se tornou um país profundamente conectado
A dimensão da comunicação política digital está diretamente relacionada à expansão do acesso à internet.
Segundo dados publicados pelo IBGE, em 2025 a internet estava presente em 95% dos domicílios brasileiros, alcançando aproximadamente 76 milhões de residências.
Esse avanço modificou profundamente a circulação de informações.
Uma entrevista exibida na televisão pode ser transformada em pequenos vídeos e compartilhada milhares de vezes.
Uma declaração de candidato pode gerar debates instantâneos.
Um acontecimento local pode alcançar repercussão nacional sem depender inicialmente dos grandes veículos de comunicação.
O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, também demonstra a importância das plataformas digitais no consumo de notícias.
O relatório identificou que as redes sociais mantinham vantagem de nove pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias entre os entrevistados brasileiros.
Essa transformação amplia o potencial das redes para participar da formação da opinião pública.
Mas o acesso à informação não garante, por si só, qualidade informativa ou capacidade de distinguir fatos de opiniões.
O poder dos algoritmos na formação da opinião política
Um dos aspectos mais discutidos da comunicação digital envolve o funcionamento dos algoritmos.
Esses sistemas selecionam e recomendam conteúdos a partir de diferentes sinais, como interesses, interações, histórico de consumo e características das publicações.
No ambiente eleitoral, isso pode fazer com que determinados usuários encontrem repetidamente mensagens semelhantes.
Uma pessoa interessada em conteúdos favoráveis a um candidato pode receber recomendações relacionadas ao mesmo posicionamento.
O processo também pode ocorrer entre usuários que acompanham conteúdos críticos àquela candidatura.
Esse fenômeno contribui para experiências informativas diferentes, mesmo quando as pessoas utilizam a mesma plataforma.
Entretanto, a ideia de que todos os usuários vivem completamente isolados em bolhas digitais é simplificadora.
As pessoas também recebem informações de familiares, colegas, veículos jornalísticos e outras fontes.
O principal desafio consiste em compreender como os sistemas de recomendação afetam a visibilidade de assuntos políticos e quais mecanismos permitem aos usuários encontrar perspectivas diferentes.
O algoritmo pode influenciar o que uma pessoa vê, mas não determina automaticamente aquilo em que ela acredita.
Influenciadores digitais se tornaram atores importantes
A participação de influenciadores digitais representa outra mudança expressiva no processo eleitoral.
Criadores de conteúdo conquistaram audiências por meio de humor, entretenimento, educação, economia e comentários sobre acontecimentos cotidianos.
Quando passam a abordar política, conseguem alcançar públicos que não necessariamente acompanham os canais tradicionais dos partidos.
O Reuters Institute identificou, em 2026, que aproximadamente 33% dos brasileiros entrevistados consumiam notícias produzidas por criadores ou influenciadores especializados em informações.
Essa presença amplia a diversidade de vozes, mas também impõe responsabilidades.
Um influenciador pode apresentar análises fundamentadas, divulgar opiniões pessoais ou reproduzir informações sem verificação adequada.
Além disso, existe diferença entre uma manifestação política espontânea e uma publicação realizada mediante remuneração.
A transparência sobre parcerias comerciais e publicidade eleitoral é fundamental para que o público compreenda os interesses envolvidos.
A popularidade de um perfil, entretanto, não equivale necessariamente à capacidade de converter seguidores em votos.
Hashtags e campanhas digitais realmente mudam resultados?
Hashtags, vídeos virais e mobilizações coletivas podem ampliar a exposição de mensagens políticas.
Uma campanha digital bem organizada consegue incentivar compartilhamentos, convocar eventos e manter determinados assuntos em circulação.
Mas existe uma diferença entre popularidade digital e comportamento eleitoral.
Uma hashtag pode alcançar grande visibilidade porque desperta apoio, rejeição, ironia ou curiosidade.
Da mesma forma, um vídeo com milhões de visualizações não significa que milhões de pessoas concordaram com seu conteúdo.
Parte do público pode sequer possuir idade eleitoral, morar fora do país ou não participar da votação.
Por isso, números de curtidas, comentários e compartilhamentos não devem ser interpretados como pesquisas de intenção de voto.
As métricas digitais são úteis para compreender alcance e engajamento, mas insuficientes para calcular o impacto real sobre as urnas.
Uma análise rigorosa precisa considerar também a composição do público, a distribuição geográfica e a possibilidade de mudança efetiva de opinião.
Desinformação e polarização política
A velocidade de circulação de informações nas redes sociais também criou oportunidades para a disseminação de conteúdos falsos ou enganosos.
Publicações descontextualizadas, vídeos manipulados e afirmações sem fundamento podem ser compartilhados rapidamente.
Em períodos eleitorais, esses conteúdos podem afetar reputações, ampliar conflitos e dificultar o acesso a informações confiáveis.
Pesquisas publicadas em revistas científicas brasileiras identificaram o papel de plataformas de mensagens e redes sociais na circulação de narrativas desinformativas durante eleições anteriores.
Entretanto, desinformação não significa automaticamente mudança de voto.
Uma pessoa pode entrar em contato com conteúdo falso e rejeitá-lo, ignorá-lo ou procurar outras fontes.
Também pode acreditar na informação sem alterar sua preferência eleitoral.
Por isso, pesquisadores distinguem exposição, crença, engajamento e persuasão.
A preservação do debate democrático exige combater manipulações comprovadas sem confundir divergências políticas legítimas com informações fraudulentas.
Inteligência artificial entrou definitivamente no debate eleitoral
A popularização da inteligência artificial generativa acrescentou uma nova dimensão às campanhas políticas.
Ferramentas digitais conseguem criar imagens, discursos, narrações e vídeos com elevado grau de realismo.
Essas tecnologias podem ser utilizadas para acessibilidade, tradução, organização de propostas e produção de materiais informativos.
Entretanto, também apresentam riscos.
Os chamados deepfakes permitem simular a aparência ou a voz de pessoas, produzindo conteúdos que podem induzir o público a acreditar em acontecimentos inexistentes.
Diante desses desafios, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras para a identificação de materiais sintéticos nas eleições de 2026.
A regulamentação exige transparência em determinadas utilizações da tecnologia e estabelece restrições contra conteúdos fraudulentos.
O desafio é proteger a integridade do processo eleitoral sem impedir aplicações legítimas da inteligência artificial.
É possível calcular quantos votos vieram das redes sociais?
Essa é a questão central do debate.
Não existe uma fórmula simples capaz de determinar quantos votos foram conquistados exclusivamente por publicações no Instagram, vídeos no TikTok ou mensagens no WhatsApp.
Uma eleição envolve fatores econômicos, sociais, culturais e institucionais.
O eleitor pode considerar o desempenho do governo, propostas dos candidatos, experiências pessoais, valores, opiniões familiares e acontecimentos políticos.
As redes sociais participam dessa combinação, mas raramente representam a única fonte de influência.
Para avaliar seu impacto, pesquisadores podem utilizar experimentos, pesquisas com acompanhamento dos mesmos eleitores ao longo do tempo e análises estatísticas.
Esses métodos permitem investigar relações entre exposição digital e comportamento político.
Mesmo assim, identificar uma correlação não significa comprovar uma relação de causa e efeito.
O fato de seguidores de determinado candidato votarem nele não demonstra necessariamente que passaram a apoiá-lo por causa das redes.
Muitas vezes, as pessoas seguem candidatos porque já concordavam com suas ideias.
Big Techs e responsabilidade democrática
A influência das plataformas digitais também levanta questões sobre o poder das grandes empresas de tecnologia.
Decisões sobre recomendações, publicidade, moderação e funcionamento dos aplicativos podem modificar a distribuição de conteúdos políticos.
Isso torna importante discutir transparência, concorrência e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, redes sociais ampliaram possibilidades de expressão e participação pública.
Cidadãos, jornalistas, pesquisadores e organizações passaram a alcançar audiências antes restritas aos grandes meios de comunicação.
Uma democracia digital saudável exige equilíbrio entre liberdade de expressão, proteção contra práticas fraudulentas e mecanismos transparentes de fiscalização.
O objetivo não deve ser transferir o controle do debate de empresas privadas para interesses partidários, mas garantir diversidade informativa e direitos aos usuários.
O Brasil deveria investir em suas próprias redes sociais?
A importância das plataformas digitais nas eleições também fortalece o debate sobre soberania tecnológica.
O Brasil possui profissionais, universidades e empresas capazes de desenvolver serviços digitais competitivos.
A criação de alternativas nacionais poderia ampliar a concorrência e estimular inovação.
Entretanto, uma rede social brasileira não seria automaticamente mais transparente ou democrática.
Independentemente da origem, qualquer plataforma precisa respeitar a legislação, proteger dados pessoais e oferecer mecanismos adequados de governança.
Investir em tecnologia nacional pode representar uma oportunidade econômica importante, desde que o objetivo seja ampliar escolhas e não restringir o debate público.
Afinal, as eleições brasileiras foram decididas nas redes sociais?
As eleições de 2018, 2022 e 2026 demonstram que as redes sociais transformaram profundamente a comunicação política brasileira.
O WhatsApp ampliou a capacidade de organização das comunidades digitais. O Instagram e o YouTube fortaleceram a comunicação audiovisual. Os influenciadores conquistaram espaço no debate público. A inteligência artificial introduziu novas possibilidades e preocupações.
Essas mudanças alteraram as estratégias das campanhas, a circulação de mensagens e a participação dos eleitores.
Entretanto, não há evidência suficiente para afirmar que os resultados presidenciais brasileiros foram decididos exclusivamente nas redes sociais.
O que se pode afirmar é que elas se tornaram parte relevante do ambiente onde os brasileiros formam opiniões, discutem propostas e compartilham informações.
Em disputas equilibradas, pequenas mudanças no comportamento eleitoral podem ser importantes. Isso torna a investigação sobre comunicação digital ainda mais necessária.
A grande transformação talvez esteja justamente nesse ponto: as campanhas deixaram de disputar apenas espaço nos meios de comunicação tradicionais e passaram a competir permanentemente pela atenção dos cidadãos.
As urnas continuam registrando a decisão dos eleitores, mas a formação dessa decisão acontece, cada vez mais, em um ambiente conectado.
Compreender essa realidade é fundamental para fortalecer a democracia, promover educação digital e garantir que a tecnologia amplie a participação política sem comprometer a qualidade da informação.