Monitoramento dos dados de funcionários pelas empresas está mudando o mercado de trabalho

Uso dados de funcionários pelas empresas está mudando o mercado de trabalho

Todos esta­mos sendo avali­a­dos todos os dias. As pas­sagens caras de avião que eu com­prei recen­te­mente já entraram na min­ha avali­ação de crédi­to. O fato de que eu parei de cor­rer todas as man­hãs foi perce­bido pelo meu aplica­ti­vo de exer­cí­cios — e, se estivesse conec­ta­do com uma com­pan­hia de seguros, essa mudança pode­ria influ­en­ciar nos preços.

Pelas min­has ativi­dades online, o Face­book sabe que eu amo cerve­ja e acred­i­ta que a min­ha tela é um bom lugar para colo­car pub­li­ci­dade de cerve­jarias hip­sters. Um site recen­te­mente afir­mou que eu sou o 1.410° usuário de Twit­ter mais influ­ente da Colôm­bia — algo que pode­ria aumen­tar min­ha pon­tu­ação de crédi­to, aparente­mente. E, sim, min­ha efi­ciên­cia como fun­cionário tam­bém pode ser avali­a­da e deter­mi­na­da por um número.

E não esta­mos ape­nas falan­do de serviços avul­sos. Um sis­tema de pon­tos foi incor­po­ra­do ao mun­do cor­po­ra­ti­vo.

Depar­ta­men­tos de recur­sos humanos estão lidan­do com vol­umes cada vez maiores de infor­mações para avaliar fun­cionários de uma for­ma mais metic­u­losa. Des­de soft­wares que gravam cada reg­istro nos tecla­dos até máquinas de café tec­nológ­i­cas que só lhe darão um café se você usar seu crachá. Há mais opor­tu­nidades do que nun­ca para chefes acom­pan­harem com­por­ta­men­tos. Alguns anal­is­tas acred­i­tam que essa indús­tria valerá mais de um bil­hão de dólares (RS$ 3,68 bil­hões) até 2022.

Um grande obje­ti­vo da cole­ta de dados é faz­er “pre­visões sobre quan­to tem­po um fun­cionário ficará no car­go, o que pode influ­en­ciar con­tratações, demis­sões ou retenção de empre­ga­dos”, diz Phoebe Moore, pro­fes­so­ra de Políti­ca Econômi­ca e Tec­nolo­gia da Uni­ver­si­dade de Leices­ter (Reino Unido) e auto­ra do livro The Quan­ti­fied Self in Pre­car­i­ty: Work, Tech­nol­o­gy and What Counts (O Ser Quan­tifi­ca­do na Pre­cariedade: Tra­bal­ho, Tec­nolo­gia e o Que Vale, em tradução livre).

A coleção de dados está “mudan­do relações de empre­ga­bil­i­dade, a for­ma como as pes­soas tra­bal­ham e as expec­ta­ti­vas de como pode­ria ser”, diz Moore.

Um prob­le­ma dessa estraté­gia é que ela é cega a alguns aspec­tos não-quan­tificáveis do tra­bal­ho. Algu­mas das coisas mais sutis que eu faço para escr­ev­er mel­hor, por exem­p­lo, não são quan­tificáveis: tomar um drink com alguém que me con­ta uma óti­ma história, ou imag­i­nar um tex­to durante o cam­in­ho até o tra­bal­ho. Nen­hu­ma dessas coisas apare­ce­ria na min­ha “pon­tu­ação profis­sion­al”. “Muitos dos aspec­tos qual­i­ta­tivos do tra­bal­ho estão sendo descar­tadas”, diz Moore, “porque se você não pode medi-las, elas não exis­tem”.

Uma pes­soa saudáv­el e fisi­ca­mente ati­va é um fun­cionário mel­hor? Pesquisas indicam que ativi­dades físi­cas dimin­uem as ausên­cias e aumen­tam a pro­du­tivi­dade. Isso lev­ou ao cresci­men­to da indús­tria de saúde e bem-estar com pro­gra­mas que valem bil­hões.

Fun­cionários dão val­or a ess­es pro­gra­mas de saúde não só porque seus chefes podem lhes dar fol­ga para par­tic­i­par deles, mas tam­bém porque se eles gravarem seus exer­cí­cios pelo celu­lar ou pul­seiras de mon­i­tora­men­to, podem rece­ber rec­om­pen­sas.

“Eu uso esse apar­el­ho, gan­ho pon­tos e com­pro coisas por faz­er coisas que eu já faria sem ele”, diz Lau­ren Hoff­man, uma ex-vende­do­ra de um dess­es pro­gra­mas de saúde dos Esta­dos Unidos e que tam­bém par­tic­i­pa­va deles.

Há vários motivos econômi­cos para cole­tar dados dos fun­cionários — des­de faz­er uma mel­hor admin­is­tração de riscos até avaliar se com­por­ta­men­tos soci­ais no local de tra­bal­ho podem levar à dis­crim­i­nação de gênero. “As empre­sas não enten­dem como as pes­soas inter­agem e colab­o­ram no tra­bal­ho”, diz Ben Waber, pres­i­dente e CEO da Humanyze, uma empre­sa amer­i­cana que agru­pa e anal­isa dados sobre o local de tra­bal­ho.

A Humanyze cole­ta dados de duas fontes. A primeira é a meta­da­ta das comu­ni­cações do fun­cionário: email, tele­fone e serviço cor­po­ra­ti­vo de men­sagens. A empre­sa diz que anal­is­ar meta­da­ta não inclui ler o con­teú­do dessas men­sagens, nem as iden­ti­dades das pes­soas envolvi­das, mas envolve avaliar a infor­mação mais ger­al, como duração, fre­quên­cia e local­iza­ção ger­al para que se sai­ba em que depar­ta­men­to o fun­cionário está.

A segun­da área remete aos dados cole­ta­dos de gad­gets como sen­sores infraver­mel­hos de Blue­tooth que detec­tam quan­tas pes­soas estão tra­bal­han­do em uma deter­mi­na­da parte do escritório e como elas se movem. Eles tam­bém usam crachás de iden­ti­dade ‘super­car­rega­dos’ que, como diz Waber, con­têm ‘micro­fones que não gravam o que você diz, mas fazem proces­sa­men­to de voz em tem­po real’. Isso per­mite a medição da pro­porção de tem­po que você fala ou quão fre­quente­mente você é inter­rompi­do.

Após seis sem­anas de pesquisa, o empre­gador recebe um quadro ger­al do prob­le­ma que quer resolver com base nos dados avali­a­dos. Se o obje­ti­vo, por exem­p­lo, for aumen­tar as ven­das, eles podem anal­is­ar o que o(a) mel­hor vendedor(a) faz que out­ros não fazem. Ou, se quis­erem medir pro­du­tivi­dade, eles podem deduzir que os fun­cionários mais efi­cientes falam mais fre­quente­mente com seus gestores.

Waber diz que é “uma lente em questões muito grandes do tra­bal­ho, como diver­si­dade, inclusão, avali­ação de car­gas de tra­bal­ho, plane­ja­men­to do escritório ou riscos reg­u­latórios”. Seu argu­men­to finan­ceiro é que essas fer­ra­men­tas aju­darão empre­sas a poupar mil­hões de dólares e anos de tem­po.

Mas nem todos estão con­ven­ci­dos da util­i­dade dessas téc­ni­cas ou se tec­nolo­gias intru­si­vas nas vidas pes­soais podem ser jus­ti­fi­cadas. Uma pesquisa da empre­sa de con­sul­to­ria PwC de 2015 indi­cou que 56% dos empre­ga­dos usari­am um dis­pos­i­ti­vo móv­el ‘wear­able’ dado por seu empre­gador se fos­se para aumen­tar seu bem-estar no tra­bal­ho. “Dev­e­ria haver algum tipo de rec­om­pen­sa por algo assim, algum bene­fí­cio em ter­mos de condições de tra­bal­ho ou van­ta­gens”, diz Raj Mody, um anal­ista da fir­ma. E Hoff­man lem­bra que ess­es pro­gra­mas não são um negó­cio fácil de vender. “Você vai pegar os dados e usá-los con­tra mim”, ouvia ela fre­quente­mente de fun­cionários descon­fi­a­dos.

E há um prob­le­ma cru­cial: essas medi­das de exer­cí­cios físi­cos fre­quente­mente não são exatas. As pes­soas não são boas em repor­tar a si mes­mas e ess­es apar­el­hos não são os mais pre­cisos. Uma avali­ação recente apon­tou que difer­entes mod­e­los e téc­ni­cas apon­tam para difer­entes resul­ta­dos e é muito difí­cil faz­er com­para­ções entre eles.

Mas tam­bém não está claro se con­tar degraus, por exem­p­lo, é uma maneira real­mente boa de medir ativi­dade, tan­to porque essa medição não leva inten­si­dade em con­ta — um pas­so cor­ren­do con­ta tan­to quan­to um pas­so em casa — e cam­in­har é mais difí­cil para uns do que para out­ros.

Out­ra questão é a quan­ti­dade de dados que ess­es pro­gra­mas con­seguem cole­tar. Eles não ape­nas mon­i­toram sua ativi­dade diária, mas muitas vezes tam­bém ofer­e­cem exam­es de saúde para os par­tic­i­pantes, o que per­mite que eles reg­istrem coisas que não pare­cem ser da con­ta do seu chefe: seu nív­el de coles­terol, seu peso, ou até mes­mo seu DNA.

Na maio­r­ia dos casos, é ile­gal nos EUA e na Europa a dis­crim­i­nação con­tra fun­cionários com base em seus dados sobre saúde ou qual­quer teste genéti­co sobre saúde, mas há algu­mas áreas cinzen­tas. Em 2010, Pamela Fink, a chefe de relações públi­cas de uma empre­sa de ener­gia amer­i­cana, proces­sou seu empre­gador ale­gan­do ter sido demi­ti­da dev­i­do a uma mas­tec­to­mia dupla para reduzir sua prob­a­bil­i­dade de desen­volver câncer. Por mais que a empre­sa não tivesse aces­so aos seus resul­ta­dos de DNA, ela disse que eles sabi­am sobre o risco porque a cirur­gia apare­ceu em suas con­tas de seguro. O caso foi resolvi­do na corte.

Os que ofer­e­cem ess­es pro­gra­mas de bem-estar dizem que os empre­gadores só veem dados agre­ga­dos e anon­i­miza­dos para que não seja pos­sív­el focar em empre­ga­dos especí­fi­cos com base em seus resul­ta­dos de bem-estar. A Humanyze diz que seus clientes não estão forçan­do seus empre­ga­dos a serem mon­i­tora­dos, mas lhes dan­do uma chance de par­tic­i­par. Assim como out­ros pro­gra­mas de bem-estar, eles anon­i­mizam e com­param a infor­mação que com­par­til­ham com fun­cionários. Waber enfa­ti­za que sua empre­sa nun­ca vende dados pra ter­ceiros e afir­ma que há transparên­cia no proces­so.

Mas esse tipo de infor­mação pode ser usa­da de maneiras mais con­tro­ver­sas e a boa von­tade das empre­sas envolvi­das não elim­i­na todos os riscos. Dados podem ser rou­ba­dos em um ataque cibernéti­co, por exem­p­lo, ou usa­do de uma for­ma que não seja trans­par­ente para os usuários. “Pode ser ven­di­da basi­ca­mente para qual­quer um, com qual­quer propósi­to, e recir­cu­la­da de out­ras maneiras”, diz Ifeo­ma Awun­ja, uma sociólo­ga e pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­dade de Cor­nell (EUA) que pesquisa o uso de dados de saúde no mer­ca­do de tra­bal­ho.

Há casos de com­pan­hias que já estão fazen­do isso — mes­mo que os dados que elas ven­dam seja anôn­i­mo, eles podem ser cruza­dos com out­ras infor­mações anôn­i­mas para iden­ti­ficar pes­soas. Nem todas essas empre­sas o fazem, e algu­mas dizem que não é uma boa ideia fazê-lo. “Tirar um lucro a cur­to pra­zo no dado de usuários pode prej­u­dicar a rep­utação da empre­sa, o que diminuirá o vol­ume de usuários e tam­bém o seu val­or para clientes”, diz Scott Mont­gomery, CEO da Well­teq, uma empre­sa de “bem-estar cor­po­ra­ti­vo” com base em Sin­ga­pu­ra.

Mas mes­mo que todas as empre­sas fizessem a coisa cer­ta e agis­sem de acor­do com o inter­esse dos clientes, a boa intenção dess­es pro­gra­mas é a úni­ca pro­teção para muitas pes­soas. A lei dos Esta­dos Unidos está “muito atrás” daque­las da União Europeia (UE) e de out­ras partes do mun­do em ter­mos de pro­teção a clientes, diz Awun­ja.

Na UE, uma nova Reg­u­lação Ger­al de Pro­teção de Dados (GDRP) entrará em vig­or em maio, o que proibirá qual­quer uso de dados pes­soas sem o con­sen­ti­men­to explíc­i­to do usuário. Nos Esta­dos Unidos, a leg­is­lação varia de Esta­do para Esta­do. Em alguns deles, com­par­til­har infor­mações sobre saúde com ter­ceiros não é ile­gal con­tan­to que os dados não iden­ti­fiquem as pes­soas. Segun­do Gary Phe­lan, um advo­ga­do da fir­ma Mitchell & Sheri­dan, des­de que esse tipo de infor­mação não seja con­sid­er­a­da médi­ca, não tem as mes­mas restrições de pri­vaci­dade. Já o Brasil ain­da dis­cute pro­postas para uma leg­is­lação especí­fi­ca que dis­ci­pline a pro­teção de dados pes­soais. Na Améri­ca Lati­na, diver­sos país­es têm leg­is­lações de pro­teção de dados, como Chile, Argenti­na, Uruguai e Colôm­bia.

Há tam­bém a questão de retorno de inves­ti­men­to para os empre­gadores. Eles real­mente estão poupan­do din­heiro? Ess­es pro­gra­mas são feitos com o intu­ito de diminuir o val­or dos seguros de saúde tan­to para as empre­sas quan­to para os fun­cionários, já que dev­e­ri­am diminuir riscos de saúde, fal­tas dev­i­do a prob­le­mas de saúde e cus­tos hos­pi­ta­lares. Mas não está claro se isso real­mente acon­tece. Um estu­do feito em 2013 pela Cor­po­ração Rand indi­cou que, enquan­to ess­es pro­gra­mas poupam din­heiro sufi­ciente para que as empre­sas paguem por eles, eles “têm pouco ou sequer algum efeito ime­di­a­to na quan­ti­dade de din­heiro gas­to em planos de saúde”.

Com todas essas fer­ra­men­tas, “seres humanos são avali­a­dos em ter­mos dos riscos que eles ofer­e­cem às empre­sas”, diz Awun­ja. Qual­quer que seja o bene­fí­cio dessas tec­nolo­gias, elas pre­cisam ser bal­anceadas com os dire­itos de pri­vaci­dade e as expec­ta­ti­vas dos fun­cionários.

Há um episó­dio da série Black Mir­ror, da Net­flix, que traz um anún­cio assus­ta­dor. Nesse episó­dio, cada pes­soa recebe uma pon­tu­ação com base em suas inter­ações em uma platafor­ma social que parece muito com o Insta­gram. Ess­es pon­tos definem quase toda opor­tu­nidade que elas terão na vida: que empre­gos con­seguirão, onde vão morar, quais pas­sagens de avião podem com­prar ou com quem namorar. Aliás, em 2020, a Chi­na terá uma Pon­tu­ação de Cidadão obri­gatória cal­cu­la­da a par­tir de uma série de fontes de infor­mação, des­de seu históri­co de com­pras até os livros que você lê.

Ain­da que a real­i­dade não seja tão sin­is­tra quan­to o episó­dio de Black Mir­ror, ele ilus­tra as lim­i­tações éti­cas, tec­nológ­i­cas e legais de faz­er algo pare­ci­do em algum lugar. Na maior parte do mun­do, a lei proíbe que o depar­ta­men­to de Recur­sos Humanos com­par­til­he ou peça dados sobre seu cartão de crédi­to, seu plano de saúde ou seu site de encon­tros preferi­do, a não ser que você dê um con­sen­ti­men­to explíc­i­to para isso.

Isso deve man­ter a maio­r­ia das ten­tações cíni­cas à dis­tân­cia por ora, mas como aproveitar os bene­fí­cios dos dados de uma maneira aceitáv­el? É pre­ciso achar esse bal­anço: como diz Waber, dados podem lhe dar con­sel­hos com base em evidên­cias para avançar na sua car­reira ou para aumen­tar sua efi­ciên­cia no tra­bal­ho. Ter um espaço para tomar con­ta de sua saúde no tra­bal­ho pode aumen­tar sua feli­ci­dade no emprego e alguns estu­dos sug­erem que isso tam­bém é traduzi­do em um aumen­to de pro­du­tivi­dade.

Parte da respos­ta parece depen­der de padrões éti­cos. Em um arti­go, Awun­ja propõe algu­mas práti­cas, como infor­mar empre­ga­dos sobre os riscos em poten­cial de dis­crim­i­nação com base em dados, não penalizar o que não quis­erem par­tic­i­par dess­es pro­gra­mas e deter­mi­nar uma data de val­i­dade aos dados cole­ta­dos.

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