P&D está mais difícil ou as empresas estão cada vez piores nessa área?

Sabe­mos que a ino­vação é o motor do cresci­men­to cor­po­ra­ti­vo. Como Strat­e­gy & demon­strou em sua pesquisa de 2015 com 1.757 exec­u­tivos, “hoje a ino­vação é um dos prin­ci­pais fatores de cresci­men­to orgâni­co para todas as empre­sas — inde­pen­den­te­mente de setor ou geografia”. De acor­do com essa pesquisa, as 1000 empre­sas que mais gas­taram em pesquisa e desen­volvi­men­to (P&D) inve­sti­ram US$ 680 bil­hões naque­le ano, 5% a mais que no ano ante­ri­or. His­tori­ca­mente, a P&D tem sido vista tam­bém como o motor do cresci­men­to econômi­co nacional.

Ape­sar da importân­cia que a ino­vação rep­re­sen­ta para as empre­sas e tam­bém para a econo­mia de for­ma mais ampla, ape­sar do aumen­to de 250% no número de cien­tis­tas e engen­heiros envolvi­dos em P&D e ape­sar de todos os espe­cial­is­tas ded­i­ca­dos a faz­er com que empre­sas inovem, o din­heiro que as empre­sas investem em P&D está geran­do cada vez menos resul­ta­dos. Na ver­dade, min­ha pesquisa demon­stra que o retorno do inves­ti­men­to em P&D caiu 65% nas últi­mas três décadas.

Não é por aca­so que essa que­da no quo­ciente de pesquisa, ou QP, das empre­sas (uma unidade de medi­da que desen­volvi para medir a pro­du­tivi­dade da P&D, ou seja, o rendi­men­to obti­do com seus inves­ti­men­tos em ino­vação) mime­ti­za a que­da do cresci­men­to do PIB dos Esta­dos Unidos nos últi­mos 30 anos.

● Com­para­ção entre a Pro­du­tivi­dade da P&D e o cresci­men­to do PIB dos Esta­dos Unidos ao lon­go do tem­po
● Pro­du­tivi­dade da P&D como QP bru­to
● Cresci­men­to nom­i­nal do PIB dos Esta­dos Unidos
● Fonte: ANNE MARIE KNOTT, BASEADA EM DADOS DA COMPUSTAT E DO BUREAU OF ECONOMIC ANALYSIS

Uma expli­cação pos­sív­el é que a P&D ten­ha se tor­na­do mais árd­ua. Essa teo­ria foi apre­sen­ta­da pelo econ­o­mista de Stan­ford Chad Jones. Jones propõe que há dois mecan­is­mos por trás dis­so: primeiro, um efeito con­heci­do como “fish­ing out” (pesca) ou “cher­ry pick­ing” (col­hei­ta de cere­jas) — a noção de que as ideias mais óbvias são descober­tas primeiro e, à medi­da que o tem­po pas­sa, a qual­i­dade das remanes­centes decai. Se pen­sar­mos em ino­vações recentes, como com­puta­dores pes­soais, a inter­net e smart­phones, provavel­mente ficare­mos céti­cos em relação a essa ideia, mas a exam­inare­mos de maneira mais especí­fi­ca em instantes. O segun­do mecan­is­mo é o da diminuição de resul­ta­dos do tra­bal­ho de pesquisa — a suposição de que acres­cen­tar mais pesquisadores diminui a quan­ti­dade de ino­vações por fun­cionário porque aumen­tam as chances de dupli­carem os esforços uns dos out­ros. Essas duas ideias pare­cem plausíveis. Na ver­dade, o pro­fes­sor da North­west­ern Uni­ver­si­ty, Robert Gor­don, em The Rise and Fall of Amer­i­can Growth (Ascen­são e Que­da do Cresci­men­to Norte-Amer­i­cano), sus­ten­ta argu­men­tos semel­hantes. Se Jones e Gor­don estiverem cer­tos, a con­se­quên­cia nefas­ta será o declínio do cresci­men­to até zero (exce­to para cresci­men­to pop­u­la­cional).

Eu ten­ho uma expli­cação mais otimista: as empre­sas estão piores em P&D. Emb­o­ra as empre­sas estarem piores em P&D pos­sa não soar mais otimista que P&D estar se tor­nan­do mais difí­cil, se for ver­dade, e se as empre­sas con­seguirem restau­rar seu QP ante­ri­or, segun­do a teo­ria, a econo­mia dev­e­ria des­fru­tar de cresci­men­to per­pé­tuo enquan­to o inves­ti­men­to em P&D con­tin­u­asse.

A grande questão é se Jones e Gor­don estão cer­tos e a P&D tornou-se mais difí­cil ou se eu estou cer­ta e as empre­sas ficaram piores nes­sa área. Emb­o­ra a que­da de 65% no QP sugi­ra que eu ten­ho razão e as empre­sas pio­raram em P&D, se a P&D estiv­er mais difí­cil tam­bém pare­cerá que as empre­sas pio­raram.

Como poderíamos tes­tar essas hipóte­ses? Uma pos­si­bil­i­dade é que, se a P&D real­mente está mais difí­cil, dev­erá estar mais difí­cil para todos. Em out­ras palavras, haverá declínio não só na média do QP a cada ano, mas tam­bém em seu val­or máx­i­mo. Por­tan­to, se com­parásse­mos a mel­hor empre­sa a cada ano (aque­la que tivesse o QP mais alto) à mel­hor empre­sa no ano seguinte, as empre­sas dos anos pos­te­ri­ores dev­e­ri­am ter QPs mais baixos que as dos anos ante­ri­ores.

E não foi isso que encon­trei ao exam­i­nar 40 anos de dados finan­ceiros de todas as empre­sas de cap­i­tal aber­to dos Esta­dos Unidos. Desco­bri que o QP máx­i­mo esta­va na ver­dade aumen­tan­do ao lon­go do tem­po! Quan­do você pen­sa em todas as empre­sas fasci­nantes que foram cri­adas como parte da econo­mia dig­i­tal isso parece plausív­el, mas ain­da há moti­vo para ficar céti­co quan­do se nada con­tra a cor­rente. Em segui­da, chequei se o mes­mo padrão se repetia caso, em vez de obser­var todas as empre­sas de cap­i­tal aber­to, eu restringisse min­ha atenção a um setor especí­fi­co, como indús­tria ou serviços. Desco­bri que o QP máx­i­mo aumen­ta­va tam­bém den­tro dos setores. Então busquei obser­var definições genéri­c­as de indús­tria, como Instru­men­tos de Medição (sis­tema padrão de clas­si­fi­cação indus­tri­al 38) e, em segui­da, definições cada vez mais especí­fi­cas, como a de Instru­men­tos Cirúr­gi­cos, Médi­cos e Odon­tológi­cos (SIC 384) e, então, Equipa­men­to Odon­tológi­co (SIC 3843). O que desco­bri foi que, quan­to mais eu restringia a bus­ca, mais o Quo­ciente de Pesquisa máx­i­mo dimin­uía ao lon­go do tem­po (vide grá­fi­co abaixo). Por­tan­to, a teo­ria de Jones pro­cede em nív­el da indús­tria.

● Quan­to mais especí­fi­ca a medição da indús­tria, mais som­brio o panora­ma do QP
● VARIAÇÃO ANUAL DE PQ MÁXIMO
● todas as empre­sas
● todas as indús­trias
● indús­trias com definições especí­fi­cas
● indús­trias com definições mais especí­fi­cas
● indús­trias com definições ain­da mais especí­fi­cas
● Fonte: ANNE MARIE KNOTT, BASEADA EM DADOS DA COMPUSTAT

As impli­cações desse padrão são par­tic­u­lar­mente empol­gantes. O que ele sug­ere é que, enquan­to as opor­tu­nidades den­tro das indús­trias dimin­uem com o tem­po – o que de fato acon­tece – , as empre­sas reagem crian­do novos setores com mais opor­tu­nidades tec­nológ­i­cas. Assim que perce­bi esse padrão, foi fácil pen­sar em exem­p­los. De fato, muitos destes são men­ciona­dos no debate atu­al sobre dis­rupção. Alguns exem­p­los são a morte da máquina de escr­ev­er e dos tele­fones fixos e sua sub­sti­tu­ição respec­ti­va por com­puta­dores pes­soais e celu­lares. Emb­o­ra haja muitos out­ros exem­p­los, o que é ver­dadeiro nos dois casos que me ocor­reram é que o mer­ca­do para a nova tec­nolo­gia é de fato muito mais amp­lo do que aque­le para a tec­nolo­gia que sub­sti­tu­iu.

Para exem­pli­ficar, temos que os com­puta­dores pes­soais des­fru­tam de uma base insta­l­a­da nos Esta­dos Unidos de 310 mil­hões de máquinas, enquan­to a base insta­l­a­da de máquinas de escr­ev­er elétri­c­as era de ape­nas 10 mil­hões de máquinas em seu auge em 1978. Emb­o­ra não pos­samos pre­v­er se esse padrão de cresci­men­to de QP máx­i­mo se man­terá para sem­pre, ele per­sis­tiu pelos últi­mos 40 anos para os quais se dis­põe de dados.

A boa notí­cia, então, é que emb­o­ra os setores indus­tri­ais pos­sam estar con­de­na­dos, as empre­sas não nec­es­sari­a­mente estarão. Elas podem migrar para setores em que há mais opor­tu­nidades e deixar aque­les com opor­tu­nidades que dimin­uem. Essa notí­cia tam­bém fornece uma lição impor­tante no que diz respeito ao aumen­to no QP: as empre­sas dev­e­ri­am se diver­si­ficar para evi­tar diminuição de opor­tu­nidades em seu próprio setor. Esse padrão ger­al tem pelo menos um sécu­lo de idade e, de fato, é a gênese da P&D indus­tri­al. Essa gênese é cap­tura­da em vívi­dos históri­cos da DuPont, Gen­er­al Motors e Stan­dard Oil no influ­ente livro do his­to­ri­ador Alfred Chan­dler, Strat­e­gy and Struc­ture (Estraté­gia e Estru­tu­ra).

Para resumir, parece que a diminuição da capaci­dade de impul­sion­ar cresci­men­to a par­tir de P&D por parte das empre­sas (e da econo­mia) se orig­i­na no fato de aque­las terem pio­ra­do em ino­vação, não no fato de a ino­vação estar mais difí­cil. E essa é uma óti­ma notí­cia porque o prob­le­ma de as empre­sas estarem cada vez piores é passív­el de con­ser­to, enquan­to o prob­le­ma de a ino­vação se tornar mais difí­cil não é. O desafio, obvi­a­mente, é saber o que con­ser­tar e como fazê-lo.


Anne Marie Knott é pro­fes­so­ra de estraté­gia na Olin Busi­ness School da Wash­ing­ton Uni­ver­si­ty em St. Louis e auto­ra do livro How Inno­va­tion Real­ly Works (Como fun­ciona a ino­vação de fato).

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