Internet das Coisas e estratégias inteligentes

Internet das Coisas e estratégias inteligentes

Inter­net das Coisas (IoT) é uma expressão que traz con­si­go um retra­to do que será nos­so mun­do no futuro – um mun­do em que obje­tos físi­cos não estarão ape­nas conec­ta­dos à Inter­net, mas tam­bém capazes de se comu­nicar uns com os out­ros. Esti­ma-se que o número de ‘coisas’ conec­tadas pela inter­net (sem incluir com­puta­dores, tele­fones e tablets) atin­ja impres­sio­n­antes 25 bil­hões em 2019 (cer­ca de cin­co vezes o que havia em 2015) graças à que­da nos preços de sen­sores, armazena­men­to de dados, conec­tivi­dade e proces­sa­men­to.

A con­tinuidade da tendên­cia de cresci­men­to expo­nen­cial da IoT depende, em cer­ta medi­da, da capaci­dade dos cri­adores de dis­pos­i­tivos inteligentes de com­er­cial­izá-los.

E cer­ta­mente as empre­sas vão lutar por opor­tu­nidades de lucro em meio à essa onda de mudanças. As expec­ta­ti­vas de mer­ca­do é que as receitas com hard­ware, soft­ware e serviços atin­ja US$ 600 bil­hões em 2019. Mas, na ânsia de obter lucros com essa trans­for­mação, muitas empre­sas têm feito pouco mais do que ape­nas embu­tir um chip em seus dis­pos­i­tivos e chamá-los de ‘inteligentes’ para posi­cioná-los em uma faixa de preço mais ele­va­da. Out­ros, de for­ma entu­si­as­ma­da, adi­cionam a seus dis­pos­i­tivos com conexão à Inter­net uma série eston­teante de atrib­u­tos, mas não real­izam mudanças nos mod­e­los de ven­da e no mar­ket­ing.

O fato é que nen­hu­ma dessas abor­da­gens deve entre­gar os resul­ta­dos esper­a­dos. Para ser bem-suce­di­do, os fab­ri­cantes de IoT pre­cisam con­vencer os con­sum­i­dores de que seus pro­du­tos ofer­e­cem algo que jus­ti­fique o preço mais ele­va­do. Isso vai exi­gir uma estraté­gia difer­ente de entra­da no mer­ca­do – uma estraté­gia que se con­cen­tre nos bene­fí­cios em vez de focar nas car­ac­terís­ti­cas dos pro­du­tos e que envol­va uma maior diver­si­dade de Stake­hold­ers e canais de ven­da.

Encontre uma audiência receptiva

Con­sidere o seguinte cenário. Um pro­du­tor de um maquinário críti­co embute sen­sores que mon­i­toram a saúde mecâni­ca do equipa­men­to e trans­mitem os dados cap­ta­dos para uma rede ou para a nuvem. Ess­es dados podem ser uti­liza­dos para esti­mar quan­do os com­po­nentes provavel­mente vão começar a fal­har, per­mitin­do aos gestores das fábri­c­as otimizar o cal­endário de manutenção e evi­tar um cus­toso tem­po de ina­tivi­dade ou uma ines­per­a­da rup­tura.

Os sen­sores embu­ti­dos prov­i­den­ci­am out­ros dados igual­mente valiosos, pro­por­cio­nan­do alguns bene­fí­cios que podem não ser ini­cial­mente per­cep­tíveis. Por exem­p­lo, eles podem detec­tar quan­do o equipa­men­to está sendo uti­liza­do de for­ma imprópria, o que poten­cial­mente pode pôr em risco a segu­rança dos tra­bal­hadores. Essa infor­mação pode ser uti­liza­da para apri­morar o treina­men­to dos oper­adores, diminuir os índices de aci­dentes, cri­ar um ambi­ente de tra­bal­ho mais seguro e, em últi­ma instân­cia, mel­ho­rar a sat­is­fação e a retenção dos empre­ga­dos.

Em resumo, a IoT capaci­ta equipa­men­tos e ofer­ece uma série de bene­fí­cios que vão muito além daque­les que podem ser ofer­e­ci­dos pelos dis­pos­i­tivos não conec­ta­dos. Mas isso tam­bém traz um dile­ma aos fab­ri­cantes. Afi­nal, como podem con­vencer seus clientes tradi­cionais, que estão tipi­ca­mente nos depar­ta­men­tos de com­pras das fábri­c­as ou nos depar­ta­men­tos de engen­haria, de que vale a pena desem­bol­sar mais din­heiro por ess­es bene­fí­cios?

O com­prador em poten­cial pode estar somente pre­ocu­pa­do com o preço e diminuir o alcance das especi­fi­cações téc­ni­cas. Ou seja, ele pode não estar em condições de avaliar os bene­fí­cios que um pro­du­to do uni­ver­so da Inter­net das Coisas tem a ofer­e­cer. Há, con­tu­do, out­ros stake­hold­ers na orga­ni­za­ção do cliente que podem estar mais inter­es­sa­dos ness­es bene­fí­cios – aque­les nas áreas dos recur­sos humanos, saúde e segu­rança, treina­men­to, oper­ações, finanças e até mes­mo os altos exec­u­tivos, para citar ape­nas alguns exem­p­los.

Além dis­so, para um equipa­men­to conec­ta­do à Inter­net ser total­mente fun­cional, ele pre­cisa de uma inter­face com o sis­tema de TI do cliente, o que tor­na imper­a­ti­vo que alguém desse depar­ta­men­to con­heça o pro­du­to antes da com­pra. Em out­ras palavras, a nego­ci­ação de um equipa­men­to inteligente deman­da uma abor­dagem mul­ti­fun­cional que não leva em con­ta ape­nas o típi­co profis­sion­al respon­sáv­el pelas com­pras dos clientes, mas todo o espec­tro de stake­hold­ers que podem se ben­e­fi­ciar ou influ­en­ciar uma decisão de com­pra.

A situ­ação do lado do con­sum­i­dor é pare­ci­da. Pro­du­tos de con­sumo conec­ta­dos à Inter­net, como alguns eletrodomés­ti­cos inteligentes, têm o poten­cial de traz­er um espec­tro de novos bene­fí­cios. Isso sig­nifi­ca uma série de van­ta­gens que tem amp­lo ape­lo entre os con­sum­i­dores, como con­tas de ener­gia menores, aumen­to da segu­rança, con­veniên­cia ou ape­nas tran­quil­i­dade.

Adap­tar as estraté­gias tradi­cionais de entra­da no mer­ca­do, con­tu­do, é uma visão lim­i­ta­da, porque reduz o públi­co que pode ser atingi­do. Ao se con­tentar em ape­nas descr­ev­er os bene­fí­cios trazi­dos pelos pro­du­tos, as empre­sas vão alcançar pri­mor­dial­mente os adep­tos de primeira hora a novas tec­nolo­gias. E se con­tin­uarem a vender por inter­mé­dio de seus canais tradi­cionais, é improváv­el que con­sigam alcançar em toda sua exten­são uma audiên­cia capaz de obter um val­or sig­ni­fica­ti­vo do uso de seus pro­du­tos.

Prepare o consumidor

A uti­liza­ção de pro­du­tos da IoT não é nec­es­sari­a­mente intu­iti­va. No exem­p­lo do maquinário de uma fábri­ca, um oper­ador tradi­cional pode neces­si­tar de treina­men­to espe­cial para explo­rar total­mente a fun­cional­i­dade adi­cional ofer­e­ci­da pelo equipa­men­to conec­ta­do – treina­men­to que só pode ser real­iza­do pelo fab­ri­cante ou pelo insta­l­ador do dis­pos­i­ti­vo.

Os oper­adores tam­bém devem ser prepara­dos para as tare­fas de agru­par, anal­is­ar e inter­pre­tar os dados que os dis­pos­i­tivos cole­tam. Em muitos casos, o cliente pode não pos­suir a capac­i­tação para asse­gu­rar esse papel, o que traz uma opor­tu­nidade poten­cial para o fab­ri­cante e seus par­ceiros estratégi­cos no cam­po de provi­men­to de geren­ci­a­men­to e análise de dados para con­strução de soluções. Essas são con­sid­er­ações que têm de ser lev­adas em con­ta em uma estraté­gia de mar­ket­ing de IoT.

Do lado do con­sum­i­dor, pro­du­tos da IoT sem­pre requerem mais tem­po e con­hec­i­men­to de tec­nolo­gia para serem uti­liza­dos, o que pode rep­re­sen­tar uma bar­reira à sua pen­e­tração no mer­ca­do. Se o pro­du­to não é intu­iti­vo, con­sum­i­dores podem se afas­tar, ape­sar de seus bene­fí­cios. Os fab­ri­cantes de pro­du­tos da Inter­net das Coisas pre­cisam encon­trar maneiras de amenizar qual­quer “techno­pho­bia” que atra­pal­he a decisão de com­pra, seja por meio de enga­ja­men­to dire­to com o con­sum­i­dor, seja com adoção de estraté­gias que apoiam os par­ceiros nos canais de ven­da.

Reveja a estratégia de mercado

Para super­ar ess­es desafios, as empre­sas pre­cis­arão imple­men­tar estraté­gias de entra­da no mer­ca­do que mirem nas neces­si­dades dos con­sum­i­dores, diver­si­ficar os canais e rev­er o próprio proces­so de ven­da.

Con­heça seus clientes – O suces­so na com­er­cial­iza­ção da Inter­net das Coisas é basea­do em um pro­fun­do entendi­men­to das neces­si­dades atu­ais dos clientes e daque­las que ele talvez nem ain­da saibam quais são. Esse proces­so se ini­cia com uma seg­men­tação dos poten­ci­ais con­sum­i­dores, com foco naque­les que provavel­mente podem obter mais bene­fí­cios com a conec­tivi­dade. Pode haver um segun­do nív­el de seg­men­tação, com os fab­ri­cantes dan­do pri­or­i­dade àque­les que têm neces­si­dades mais claras e que ger­am mais val­or. Em segui­da, podem ser abor­da­dos clientes que são mais aber­tos a alter­ar a maneira como oper­am ou se com­por­tam. Em vez de ten­tar ser ou faz­er tudo para todos os clientes, os fab­ri­cantes pre­cisam se con­cen­trar em poten­ci­ais com­pradores para quem os dis­pos­i­tivos rep­re­sen­tam a solução para seu maior prob­le­ma.

Ven­da os bene­fí­cios – Dar sus­ten­tação aos bene­fí­cios para os clientes com cas­es e infor­mações que con­têm a história do pro­du­to. No caso da relação B2B, um jeito de destacar os bene­fí­cios – como redução de cus­to ou gan­hos de efi­ciên­cia opera­cional – é alter­ar o mod­e­lo de pre­ci­fi­cação, ao atrelá-lo ao poten­cial de econo­mia para o cliente. A Gen­er­al Elet­ric, por exem­p­lo, usa um mod­e­lo de divisão de riscos e gan­hos para pre­ci­ficar suas ofer­tas lig­adas à IoT como motores para jatos.

É impor­tante para os fab­ri­cantes de Inter­net das Coisas mostrar não ape­nas os bene­fí­cios óbvios, mas tam­bém aque­les que os clientes podem ain­da não te con­sid­er­a­do. Por exem­p­lo, pro­du­tos inteligentes têm o poten­cial de cole­tar uma série de dados enquan­to real­izam nor­mal­mente sua função prin­ci­pal.

Empre­sas estão começan­do a enten­der como podem uti­lizar as infor­mações de maneiras sur­preen­dentes, como usar os dados de trá­fi­co cole­ta­dos por sis­temas de ilu­mi­nação conec­ta­dos para mel­ho­rar o lay­out de lojas ou ter infor­mações cole­tadas de apar­el­hos domés­ti­cos para pro­je­tar casas com design mais ade­qua­do ao esti­lo de vida dos pro­pri­etários.

Mais inter­ação nas ven­das – Para pro­du­tos da Inter­net das Coisas é impor­tante ter uma visão ampla a respeito de quem no uni­ver­so do cliente vai se ben­e­fi­ciar de um dis­pos­i­ti­vo conec­ta­do. Às vezes, os ben­e­fi­ci­a­dos não são nec­es­sari­a­mente os próprios com­pradores. Mas como eles podem influ­en­ciar a decisão de aquisição, são um pon­to críti­co para a ven­da.
Nas ven­das para con­sum­i­dores finais, expandir os pon­tos de inter­ação com clientes sig­nifi­ca ir além dos canais tradi­cionais de dis­tribuição. No caso da Nest, a empre­sa começou venden­do seus ter­mostatos inteligentes dire­ta­mente para os afi­ciona­dos por tec­nolo­gia por meio do seu web­site, mas rap­i­da­mente ado­tou canais com­ple­mentares por meio de acor­dos com empre­sas como a Best Buy, posi­cio­nan­do-se na inter­secção entre o con­sumo de eletrôni­cos e de ter­mostatos tradi­cionais.

Adote uma abor­dagem con­sul­ti­va – Uma ven­da bem-suce­di­da de pro­du­tos da Inter­net das Coisas neces­si­ta uma abor­dagem que enfa­tize a edu­cação e a ven­da com con­sul­to­ria. Profis­sion­ais de ven­da no uni­ver­so B2B devem reser­var um tem­po para se comu­nicar efe­ti­va­mente com um com­ple­to ecos­sis­tema de stake­hold­ers e até para encon­trar experts den­tro de sua própria orga­ni­za­ção quan­do necessário. Isso pode aumen­tar sub­stan­cial­mente o ciclo de ven­das, com impli­cações para o geren­ci­a­men­to do proces­so de com­er­cial­iza­ção e adoção de estru­turas de incen­ti­vo.

A Gen­er­al Elet­ric ado­tou uma abor­dagem con­sul­ti­va para ess­es pro­du­tos da IoT ao traz­er arquite­tos de soluções para tra­bal­har de for­ma próx­i­ma ao cliente na pré-ven­da. Ess­es profis­sion­ais adquirem um con­hec­i­men­to apro­fun­da­do do negó­cio do cliente de modo a deter­mi­nar a solução mais apro­pri­a­da den­tro do escopo ofer­e­ci­do pela GE (equipa­men­tos, soft­wares e serviços).

No caso das ven­das para o con­sum­i­dor final, as empre­sas de Inter­net das Coisas podem tra­bal­har com os par­ceiros nos canais para desen­volver uma estraté­gia nas lojas ou no mun­do dig­i­tal que lev­em os con­sum­i­dores a iden­ti­ficar os bene­fí­cios ofer­e­ci­dos pelos pro­du­tos. Em alguns casos, fab­ri­cantes podem con­sid­er­ar inve­stir em canais alter­na­tivos como quiosques em shop­pings ou anún­cios que con­tam a história do pro­du­to.

O fato é que a com­er­cial­iza­ção de pro­du­tos da Inter­net das Coisas, seja para empre­sas ou con­sum­i­dores, deman­da uma abor­dagem dis­tin­ta da uti­liza­da para com­er­cial­iza­ção de dis­pos­i­tivos desconec­ta­dos.

Em vez de vender pro­du­tos com cer­tas car­ac­terís­ti­cas, os fab­ri­cantes estão essen­cial­mente ofer­e­cen­do um con­jun­to de bene­fí­cios para diver­sos stake­hold­ers. Para realizar essa tran­sição, com­pan­hias devem ser capazes de quan­tificar e demon­strar clara­mente os bene­fí­cios dos pro­du­tos, além de comu­nicá-los de uma for­ma atraente

Dis­pos­i­tivos inteligentes e conec­ta­dos vão sem dúvi­da dom­i­nar nos­sos lares, escritórios, fábri­c­as e cidades. As empre­sas que escol­hem uma abor­dagem inteligente para levar seus dis­pos­i­tivos ao mer­ca­do terão mais chances de pros­per­ar no mun­do da Inter­net das Coisas.

Por Eri­ca Navales e Rob Haslerust

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