Use seu privilégio comum para ajudar outros

Use seu privilégio comum para ajudar outros

Muitas vezes esqueço que sou hétero. Não pen­so muito sobre isso. Quan­do me per­gun­tam o que fiz no final de sem­ana, ou quan­do colo­co fotos de família em min­ha mesa no tra­bal­ho, não ten­ho razão para me ques­tionar se o que eu digo deixará alguém descon­fortáv­el, ou levará a uma pia­da às min­has cus­tas, ou levará um cole­ga de tra­bal­ho a pen­sar que estou atraí­da por ele. Nos­sa cul­tura é pro­gra­ma­da para que het­eros­sex­u­ais como eu sejamos ape­nas nós mes­mos sem nen­hum esforço. Mas para alguns cole­gas gays, uma sim­ples per­gun­ta sobre o final de sem­ana ou decisão sobre como dec­o­rar sua mesa de tra­bal­ho traz um estresse sig­ni­fica­ti­vo – como agir, em quem con­fi­ar, o que com­par­til­har. Um estu­do recente desco­briu que 46% dos fun­cionários LGBTQ são reser­va­dos em relação à sua ori­en­tação sex­u­al no local de tra­bal­ho, por razões que vão des­de o medo de perder o emprego até serem estereoti­pa­dos. Ao con­trário de mim, uma pes­soa que não é hétero não tem o priv­ilé­gio de pas­sar o dia inteiro sem se lem­brar de sua ori­en­tação sex­u­al.

Esse priv­ilé­gio de poder esque­cer parte de quem você é não é exclu­si­vo dos het­eros­sex­u­ais. Cada um de nós tem algu­ma parte da nos­sa iden­ti­dade que requer pou­ca atenção para pro­te­ger-se do peri­go, dis­crim­i­nação ou piadas sem graça. Nos Esta­dos Unidos por exem­p­lo, se você é bran­co, cristão, saudáv­el, het­eros­sex­u­al, falante de lín­gua ingle­sa, essas par­tic­u­lar­i­dades são fáceis de esque­cer. É ape­nas um jeito comum de ser. O priv­ilé­gio comum é comum porque se mis­tu­ra bem aos padrões e às pes­soas ao nos­so redor e, por­tan­to, é facil­mente esque­ci­do.

Quase toda pes­soa nos Esta­dos Unidos tem um ou out­ro tipo desse priv­ilé­gio comum. Isso não é nada para se enver­gonhar ou negar, mes­mo que muitas vezes pareça uma acusação. O priv­ilé­gio comum é, na ver­dade, uma opor­tu­nidade. Pesquisas repeti­da­mente con­fir­mam que aque­les com priv­ilé­gio comum têm o poder de falar em nome daque­les que não o detêm e têm uma influên­cia par­tic­u­lar­mente efi­caz quan­do o fazem. Para muitos de nós que procu­ram uma opor­tu­nidade para com­bat­er a intol­erân­cia e o pre­con­ceito no local de tra­bal­ho ou em nos­sa cul­tura mais ampla, podemos estar per­den­do uma opor­tu­nidade que está na cara: usar a natureza comum de quem somos como uma fonte de poder extra­ordinário.

Por exem­p­lo, os psicól­o­gos Heather Rasin­s­ki e Alexan­der Czopp anal­is­aram como as pes­soas recon­hecem o con­fron­to sobre um comen­tário racial­mente ten­den­cioso. Eles desco­bri­ram que obser­vadores bran­cos eram mais per­sua­di­dos por con­fronta­dores bran­cos do que por con­fronta­dores negros e tax­avam os con­fronta­dores negros de serem mais rudes. A cor bran­ca dava à pes­soa mais legit­im­i­dade do que a negra quan­do se fala­va sobre pre­con­ceito racial.

De maneira sim­i­lar, os estu­diosos David Hek­man, Ste­fanie John­son, Maw-Der Foo e Wei Yang estu­daram o que acon­tece com as pes­soas que ten­tam defend­er a diver­si­dade no local de tra­bal­ho. As mul­heres e os negros que defendi­am a diver­si­dade eram menos con­sid­er­a­dos pelos chefes do que as mul­heres e os negros que não defendi­am a diver­si­dade. Exec­u­tivos bran­cos não viram qual­quer difer­ença nas suas clas­si­fi­cações, quer eles defend­essem ou não a diver­si­dade. Eles encon­traram o mes­mo padrão nas decisões de con­tratação. Se um ger­ente bran­co con­tratasse alguém que se pare­cia com ele (ou alguém que fos­se difer­ente dele), isso não tin­ha nen­hum impacto sobre suas avali­ações de desem­pen­ho. Mas, se um ger­ente negro con­tratasse alguém que se pare­cesse com ele, ele seria cen­sura­do por isso. Em out­ras palavras, o priv­ilé­gio comum – a parte de nos­sas iden­ti­dades sobre as quais nós menos pen­samos – é tam­bém o lugar onde exerce­mos grande influên­cia em favor de out­ros.

Essa influên­cia existe até online, como o cien­tista políti­co Kevin Munger mostrou por meio de uma exper­iên­cia inteligente no Twit­ter foca­da nas pes­soas que uti­lizavam a palavra “pre­to” de uma for­ma pre­con­ceitu­osa em relação a out­ras pes­soas online. Usan­do bots com iden­ti­dades bran­cas ou negras, ele twit­tou para os asse­di­adores: “Ei, cara, ape­nas lem­bre-se que algu­mas pes­soas real­mente ficam ofen­di­das quan­do você as moles­ta com este tipo de lin­guagem”. Esse tweet leve de um bot bran­co que pare­cia ter 500 seguidores lev­ou a uma redução no assé­dio racista online no perío­do de sete dias após o tweet, enquan­to que o mes­mo tweet de um bot negro com o mes­mo número de seguidores teve pouco efeito (curiosa­mente, ape­nas os usuários anôn­i­mos que uti­lizaram a palavra “pre­to” foram afe­ta­dos; aque­les que aparentavam usar seus nomes e fotos reais não foram afe­ta­dos pelo con­fron­to). Se este é o efeito que um leve tweet de um estran­ho pode ter, temos que pen­sar sobre o impacto poten­cial de nos­so próprio priv­ilé­gio comum.

Para usar o seu priv­ilé­gio comum de uma for­ma que ajude out­ros, aqui estão algu­mas coisas que você pode faz­er:

• Primeiro, des­cubra as partes da sua iden­ti­dade nas quais você menos pen­sa. Uma vez iden­ti­fi­cadas, você encon­trou seu priv­ilé­gio comum.

• Segun­do, comece a apren­der o que as pes­soas que não têm esse priv­ilé­gio comum encon­tram como desafios no tra­bal­ho, na esco­la e em suas comu­nidades. Você pode usar a Inter­net como um bom pon­to de par­ti­da para relatos em primeira pes­soa.

• Ter­ceiro, pro­cure opor­tu­nidades para falar e agir. Con­frontar pes­soas é ape­nas uma das muitas maneiras de você uti­lizar seu priv­ilé­gio comum. Em vez dis­so, podemos faz­er per­gun­tas, lev­an­tar questões e adi­cionar per­spec­ti­vas que não estão emergin­do de for­ma orgâni­ca nas dis­cussões no tra­bal­ho. Podemos apre­sen­tar dados, con­vi­dar pes­soas para dis­cussões e cri­ar um agi­to em torno de ideias. Podemos ampli­ficar as opiniões de pes­soas que não são ouvi­das em reuniões e retomar con­ver­sas quan­do alguém é inter­rompi­do. Podemos dar crédi­to pelo tra­bal­ho das pes­soas e divul­gar seu tal­en­to. Podemos notar quan­do o pre­con­ceito está ocor­ren­do à nos­sa vol­ta e apon­tá-lo quan­do isso acon­tece.

• Quar­to, ten­ha em mente os momen­tos em que você pos­sa inad­ver­tida­mente falar em nome do grupo que você apoia. Não é inco­mum nos con­cen­trar­mos em nós mes­mos em vez de nas pes­soas às quais esta­mos ten­tan­do nos aliar, mas isso cus­ta caro. Quan­do acon­tece, afaste-se ou recue e apren­da com aque­les cujas vidas são dire­ta­mente afe­tadas pela questão, ao invés de nos apre­sen­tar­mos como espe­cial­is­tas no assun­to. Aceite a ori­en­tação deles enquan­to usa seu próprio priv­ilé­gio comum.

É a par­tir desse aspec­to sobre o qual nós menos pen­samos que podemos faz­er o maior bem. Cada um de nós tem algum tipo de priv­ilé­gio comum e isso é uma boa notí­cia, porque sig­nifi­ca que quase todos nós temos mais influên­cia do que podemos imag­i­nar.

Por Dol­ly Chugh

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