Como o Instagram se tornou uma potência cultural

Como o Instagram se tornou uma potência cultural

Quan­do Justin Bieber fez seu primeiro post no Insta­gram, em 2011, ele não bus­cou seduzir sua legião de fãs com um self­ie que o mostra­va sem camisa, ou com o resul­ta­do de uma sessão fotográ­fi­ca cuida­dosa­mente plane­ja­da.

Só que­ria se queixar do trân­si­to em Los Ange­les.

Fora de foco. Cenário cor­riqueiro. Nada de artís­ti­co. Pouco impor­ta. Eram os primeiros dias do Insta­gram, antes que os smart­phones con­tassem com câmeras capazes de pro­duzir ima­gens de qual­i­dade mais alta do que os instan­tâ­neos do pas­sa­do.

A maio­r­ia das cele­bri­dades, algu­mas das quais têm dezenas de mil­hões de seguidores, ago­ra se pre­ocu­pa muito mais com aqui­lo que colo­ca na platafor­ma. O Insta­gram tem posição cen­tral em sua imagem públi­ca. O mes­mo vale para ado­les­centes que só querem pare­cer cool, e para todo mun­do mais.

Antes de deixarem a empre­sa, na segun­da-feira, Kevin Sys­trom e Mike Krieger, os cofun­dadores do Insta­gram, coman­davam uma platafor­ma que se tornou uma potên­cia cul­tur­al. Ao lon­go do cam­in­ho, eles foram ben­e­fi­ci­a­dos por avanços tec­nológi­cos e mudanças soci­ais que tornaram um app como o Insta­gram obri­gatório.

O COMEÇO

O Insta­gram foi fun­da­do em 2010, mas ini­cial­mente seu foco era mar­car local­iza­ções, na for­ma de um app chama­do Burbn. Krieger e Sys­trom perce­ber­am que os usuários ini­ci­ais do Burbn uti­lizavam pesada­mente os recur­sos fotográ­fi­cos do app, e por isso refor­mu­la­ram seu con­ceito, toman­do por base o com­par­til­hamen­to de fotos, e ado­taram o nome Insta­gram.

De muitas maneiras, era o momen­to per­feito para lançar um app de com­par­til­hamen­to de fotos. O Flickr, que por algum tem­po domi­nou esse seg­men­to do mer­ca­do, esta­va em declínio. A Apple tin­ha anun­ci­a­do o iPhone 4, com câmera de cin­co megapix­els, o que na época era vis­to como um imen­so avanço. E quem tivesse uma câmera menos avança­da podia recor­rer aos fil­tros fáceis de usar ofer­e­ci­dos pelo Insta­gram, e obscure­cer qual­quer gran­u­lação.

Mil­hares de pes­soas baixaram o app já nas primeiras horas de lança­men­to. Ele ultra­pas­sou a mar­ca do mil­hão de usuários dois meses mais tarde. Em 2012, eram 40 mil­hões. Ago­ra, mais de um bil­hão de pes­soas usam o Insta­gram, e anal­is­tas ante­ci­pam que o cresci­men­to prossi­ga.

Dezoito meses depois da chega­da do Insta­gram, o Face­book adquir­iu a com­pan­hia, pela vis­tosa quan­tia de US$ 1 bil­hão. A Bloomberg Intel­li­gence recen­te­mente avaliou seu val­or de mer­ca­do em mais de 100 vezes essa quan­tia.

UMA CORRENTE DE POSITIVIDADE E POSES

O con­ceito do Insta­gram era mais sim­ples que o de redes soci­ais con­cor­rentes. O app ofer­e­cia uma cor­rente de fotos — e mais tarde vídeos — em ger­al agradáveis, boni­tos. Seus feeds não trazi­am notí­cias pesadas, e não eram poluí­dos por con­vites para baixar novos apps.

As câmeras dos smart­phones mel­ho­raram, e com isso o dese­jo dos usuários de com­par­til­har fotos aumen­tou. O Insta­gram con­seguiu super­ar o desafio do rival Snapchat, em parte ao imi­tar o Sto­ries, um pop­u­lar recur­so do app con­cor­rente, que exibe fotos por 24 horas e depois as apa­ga.

Os críti­cos dizem que o Insta­gram ofer­ece uma ver­são cuida­dosa­mente ence­na­da da mel­hor vida de alguém —o que por sua vez inspi­ra sen­ti­men­tos per­sis­tentes de inve­ja, ou de exaustão pelo esforço de man­ter fachadas, ou uma neces­si­dade esma­gado­ra de aprovação, ou apetite por algo mais real.

Por out­ro lado —esse brunch não parece óti­mo? Aque­le cachor­ro não é per­feito?

Ape­sar de todos os com­por­ta­men­tos que inspi­ra, o app con­tin­ua a ser uma maneira bási­ca de man­ter o con­ta­to com os ami­gos, ou faz­er hora na fila do super­me­r­ca­do. E fun­ciona até como app para encon­tros.

CELEBRIDADES DESENVOLVEM VOZES PRÓPRIAS

Emb­o­ra o cresci­men­to do app ten­ha sido pro­peli­do pelos usuários comuns, a maior parte da influên­cia cul­tur­al que o Insta­gram exerce vem de sua util­i­dade para as cele­bri­dades, sem­pre inter­es­sadas em se apre­sen­tar da mel­hor maneira pos­sív­el;

No começo, os servi­dores da empre­sa enfrentavam difi­cul­dades para acom­pan­har a deman­da quan­do Bieber posta­va uma foto. Ago­ra, em lugar de obter infor­mações sobre cele­bri­dades por meio de entre­vis­tas de jor­nal­is­tas inquis­i­tivos, os fãs seguem as con­tas delas no Insta­gram e têm um vis­lum­bre de suas vidas pes­soais — por mais arti­fi­ci­ais que sejam essas ima­gens.

Os con­vi­da­dos ao baile de gala do Met­ro­pol­i­tan Muse­um mostram a fes­ta por den­tro. Astros da NBA usam o Insta­gram para exibir seus regimes de preparação físi­ca, o que per­mite que os torce­dores mais ardorosos os acom­pan­hem mes­mo nas pausas entre as tem­po­radas de bas­quete. O Papa ofer­ece ori­en­tação espir­i­tu­al poliglota.

Cele­bri­dades de primeira lin­ha como Bey­on­cé e Kylie Jen­ner anun­ci­am que estão grávi­das, e o nasci­men­to de seus bebês, usan­do o Insta­gram, e não mais em capas de revista. Astros apan­hados em escân­da­los post­am tex­tos ou vídeos de esclarec­i­men­to e pedi­dos de des­cul­pas, antes que os sites noti­ciosos ten­ham tem­po de atu­alizar seus arti­gos.

Além de aju­dar as cele­bri­dades esta­b­ele­ci­das a man­ter sua posição, o Insta­gram tam­bém aju­da a cri­ar novas cele­bri­dades. Trans­for­mou usuários comuns em “influ­en­ci­adores”, pagos para divul­gar mar­cas — des­de que ten­ham seguidores sufi­cientes. Uma con­ta de alta vis­i­bil­i­dade no Insta­gram pode ala­van­car opor­tu­nidades profis­sion­ais,

Mas mes­mo pes­soas que lucraram pro­fun­da­mente com a platafor­ma dizem neces­si­tar de um des­can­so oca­sion­al. Sele­na Gomez, que tem 143 mil­hões de seguidores, a maior audiên­cia do Insta­gram, anun­ciou na segun­da-feira que se afas­taria da mídia social por algum tem­po.

“Por mais gra­ta que eu seja pela voz que a mídia social dá a cada um de nós, sou igual­mente gra­ta por poder me afas­tar e viv­er min­ha vida pre­sente no momen­to que me foi dado”, escreveu a estrela pop, ao lado de um self­ie pouco níti­do.

Fonte: THE NEW YORK TIMES

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