Quer ter sucesso no futuro? domine a linguagem dos computadores

“Imag­ine um mun­do onde as pes­soas poderão expres­sar suas prefer­ên­cias em códi­gos. Daria para ali­men­tar um grande sis­tema de inteligên­cia arti­fi­cial que decidirá o que deve ser feito”

No Rio de Janeiro para o “embaraçoso” Con­gres­so Inter­na­cional de Matemáti­ca, Stephen Wol­fram de 58 anos, con­sid­er­a­do um dos maiores espe­cial­is­tas do mun­do em inteligên­cia arti­fi­cial, falou à Fol­ha de São Paulo sobre suas visões para o futuro.

Como o sen­hor imag­i­na que o mun­do será quan­do boa parte da pop­u­lação pud­er pro­gra­mar? No futuro, quan­do todos sou­berem escr­ev­er um códi­go, o cardá­pio provavel­mente será um pun­hado de códi­gos que basi­ca­mente dizem como sua comi­da será prepara­da por um robô coz­in­heiro.

Um exem­p­lo inter­es­sante, que provavel­mente não será apli­ca­do exata­mente dessa for­ma, é a políti­ca.
Ago­ra temos algo como cin­co can­didatos, dos quais você pre­cisa escol­her um. Imag­ine um mun­do, e isso é um exer­cí­cio de imag­i­nação, onde todos pos­sam expres­sar suas prefer­ên­cias como grandes apan­hados de códi­go.

As pes­soas poderão escr­ev­er um ensaio com­puta­cional que descre­va suas prefer­ên­cias sobre como as coisas devam fun­cionar. Imag­ine então que você use isso para ali­men­tar um grande sis­tema de inteligên­cia arti­fi­cial, e ele resolverá o que faz­er.

É claro que isso nos leva a prob­le­mas da filosofia clás­si­ca. Con­hecen­do todas essas prefer­ên­cias, há a pos­si­bil­i­dade de se optar por con­tentar a maior parte das pes­soas, ou pelo con­tenta­men­to médio de todos.

Este será um prob­le­ma que pre­cis­ará ser resolvi­do fora do sis­tema.

O sen­hor acha que as cri­anças devem apren­der a pro­gra­mar des­de cedo? Algu­mas pes­soas dizem que as cri­anças ficarão con­fusas de apren­der lin­guagem com­puta­cional tão cedo, mas isso não acon­tece.

Elas estão acos­tu­madas a apren­der regras sobre como as coisas fun­cionam que lhes pare­cem arbi­trárias.
Para esta ger­ação de cri­anças, o pen­sa­men­to com­puta­cional será a prin­ci­pal habil­i­dade que irá dis­tin­guir as pes­soas que real­mente terão suces­so.

E o mais assus­ta­dor é que na maior parte do mun­do as esco­las ain­da não começaram a ensi­nar isso.

A inteligên­cia arti­fi­cial pode aju­dar a resolver os entrav­es da edu­cação mes­mo em país­es pobres? O san­to graal da inteligên­cia arti­fi­cial é con­stru­ir uma máquina de ensi­nar. Isso ain­da não teve suces­so.

A edu­cação está indus­tri­al­iza­da, com várias cri­anças em sala receben­do a mes­ma lição. A inteligên­cia arti­fi­cial pode aju­dar a per­son­alizar o ensi­no.

Tem havi­do muitos exper­i­men­tos. O desafio é repro­duzir nas máquinas o mod­e­lo de apren­diza­do humano.
Podemos faz­er um sis­tema que pre­ve­ja, a par­tir das suas respostas ante­ri­ores, como você vai respon­der a próx­i­ma questão. Se a máquina con­seguir iden­ti­ficar em qual parte você está con­fu­so, será valioso.

É claro que o con­ta­to entre humanos é impor­tante, bem como ter pro­fes­sor moti­va­do.

Esta­mos per­to do que mostram os filmes de ficção cien­tí­fi­ca? Algu­mas coisas são pre­visíveis, como a inteligên­cia arti­fi­cial pre­vista nos filmes. O que é difí­cil de imag­i­nar são as con­se­quên­cias soci­ais.

Por exem­p­lo, é óbvio que poderíamos ter as redes soci­ais, mas a importân­cia que alcançaram não era pre­visív­el. Pelo menos não para mim.

A real­i­dade aumen­ta­da tam­bém cer­ta­mente irá acon­te­cer. Em uma con­ver­sa como a nos­sa, no futuro, eu terei um dis­pos­i­ti­vo que estará ouvin­do o que eu digo, olhan­do o que acon­tece, e me dará várias sug­estões: faça isso, faça aqui­lo.

Ele irá procu­rar infor­mações sobre você e me dirá: “Ela pode estar inter­es­sa­da em tal assun­to”. Será sim­biose entre humanos e inteligên­cia arti­fi­cial.

A inteligên­cia arti­fi­cial poderá dom­i­nar o mun­do? Eu digo com certeza é que a inteligên­cia arti­fi­cial irá sug­erir o que os humanos devem faz­er, e na maior parte do tem­po seguire­mos ess­es con­sel­hos. As pes­soas que dirigem com GPS, por exem­p­lo, nor­mal­mente vão para onde o apar­el­ho man­da.

Out­ra coisa que aparece muito nos filmes é a crio­genia [téc­ni­ca de man­ter um cor­po con­ge­la­do para ressus­citá-lo], e cer­ta­mente isso será real­i­dade. Fal­ta ape­nas um pequeno detal­he para alcançar, assim como a clon­agem e a edição genéti­ca depen­di­am de ape­nas um detal­he.

Eu ten­ho várias infor­mações gravadas sobre a min­ha vida, como cada tecla que já dig­itei, e esse tipo de coisa. A grande questão é: ten­ho infor­mação sufi­ciente para faz­er um robô de mim mes­mo?

O sen­hor gostaria de ter um dess­es? Eu pode­ria me aposen­tar e faz­er algo difer­ente. Tem várias coisas que eu gostaria de faz­er. As pes­soas dizem que, se as máquinas fiz­erem tudo, não sobrará nada para os humanos faz­erem, mas o que quer­e­mos faz­er é uma questão intrin­se­ca­mente humana. As suas moti­vações não são autom­a­tizáveis porque não há respos­ta cer­ta para isso.

O que entu­si­as­ma o sen­hor hoje? Ain­da jovem eu era con­heci­do por realizar cál­cu­los muito elab­o­ra­dos da físi­ca, mas o que as pes­soas não enten­di­am, ape­sar de eu nun­ca ter escon­di­do, é que eu esta­va ape­nas usan­do o com­puta­dor para faz­er essas coisas. Mas ninguém havia tido essa ideia.

Hoje em dia é uma coisa óbvia. Eu não gosta­va de faz­er cál­cu­los. Era pos­sív­el desen­volver fer­ra­men­tas com­puta­cionais para cal­cu­lar, então eu fiz.

Eu fun­da­men­tal­mente pego uma coisa muito com­pli­ca­da e proces­so ela até um nív­el prim­i­ti­vo para enten­der quais são os fun­da­men­tos. Depois recon­struo como um grande pro­du­to de engen­haria tec­nológ­i­ca. O que me entu­si­as­ma é essa alternân­cia entre ciên­cia bási­ca e apli­cação tec­nológ­i­ca.

Eu gos­to de enten­der as coisas e de usar esse con­hec­i­men­to para con­stru­ir fer­ra­men­tas poderosas que me aju­dam a enten­der mais coisas. Gos­to de con­stru­ir o que chamo de “artefatos aliení­ge­nas”.

São coisas que, ao exi­s­tirem, as pes­soas con­seguem enten­der para que servem, mas antes, ninguém teria adi­v­in­hado que exi­s­tiri­am.

Posts Similares