Sua empresa está preparada para o futuro do trabalho?

futuro do trabalho

Em entre­vista exclu­si­va, Sil­vio Meira, espe­cial­ista em Tec­nolo­gia da infor­mação e ino­vação, pro­je­ta a pro­fun­da mudança pela qual a orga­ni­za­ção do tra­bal­ho, os profis­sion­ais, as empre­sas e as cidades devem pas­sar nos próx­i­mos anos.

 

Quan­to tem­po o leitor leva no trans­porte entre sua casa e o tra­bal­ho? Se for de 10 a 15 min­u­tos, é saudáv­el. Se chegar a algo entre 40 e 90 min­u­tos, tra­ta-se de um quadro doen­tio. E se sua respos­ta for “não sei, varia muito”, como já ocorre em São Paulo e começa a ocor­rer em cidades como Belo Hor­i­zonte, Rio de Janeiro, Recife e Brasília, o caso é ter­mi­nal. Pior que isso, só se você já estiv­er con­for­ma­do com a situ­ação, achando‑a “nat­ur­al”.

Vive­mos, cada vez mais, em uma sociedade de serviços, em que a moe­da é o tem­po das pes­soas. Se, em um dia de 16 horas “líquidas”, três se com­pro­m­e­tem no trân­si­to, isso pre­cisa ser encar­a­do, micro­eco­nomi­ca­mente, como um cus­to de transação intol­eráv­el. Tam­bém não é pagáv­el do pon­to de vista da macro­econo­mia, uma vez que os danos ao meio ambi­ente decor­rentes
com­pro­m­e­tem a pro­dução e o con­sumo no lon­go pra­zo. E, se a vida humana dura cer­ca de 100 anos, tal des­perdí­cio é ina­ceitáv­el. Isso já está sendo perce­bido, tan­to que 57% dos moradores de São Paulo querem deixar a cidade, segun­do pesquisa recente, e não é por con­sid­erá-la “hor­rív­el”.

O cenário decorre de um descom­pas­so. Temos um modo de tra­bal­ho orga­ni­za­do nos moldes indus­tri­ais, mas nos­sa econo­mia deixou de se basear na indús­tria. E ele se repete no mun­do todo, ain­da que seja mais agu­do em país­es como o Brasil, que têm um mod­e­lo de mobil­i­dade urbana pré-mod­er­no (porque as ânco­ras do sis­tema de trans­porte não são todas conec­tadas, como seri­am, por exem­p­lo, se um metrô lig­asse o aero­por­to ao cen­tro da cidade) e cuja taxa de cresci­men­to demográ­fi­co ain­da é ele­va­da –em 2025, esti­ma-se que o número de habi­tantes da Grande São Paulo salte de 16 mil­hões para 25 mil­hões, acom­pan­han­do um PIB de quase US$ 1 tril­hão.

Con­clusão? Esta­mos à beira da invi­a­bi­liza­ção do atu­al esti­lo de vida e às vésperas de seu redesen­ho rad­i­cal. Esse foi o tema da entre­vista exclu­si­va de HSM Man­age­ment com Sil­vio Meira, estu­dioso do assun­to, uma das maiores autori­dades do Brasil na área de tec­nolo­gia da infor­mação, fun­dador do Cen­tro de Estu­dos e Sis­temas Avança­dos do Recife (C.E.S.A.R.), cen­tro de pesquisas que é refer­ên­cia inter­na­cional em TI, e do tam­bém recifense Por­to Dig­i­tal, con­sid­er­a­do o Vale do Silí­cio brasileiro. Em con­ver­sa com Adri­ana Salles Gomes, edi­to­ra-exec­u­ti­va de HSM Man­age­ment, Meira, que tam­bém é pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Per­nam­bu­co, pro­je­ta como o tra­bal­ho, as cidades e o próprio sis­tema de pro­dução se trans­for­marão. E avisa: o novo par­a­dig­ma não será o do tra­bal­ho em casa, como dese­jam muitos, e sim o de empre­sas “deslo­cal­izadas” e de profis­sion­ais molda­dos segun­do 6 Cs de habil­i­dades.

Mero exer­cí­cio de futur­olo­gia? Quem viv­er verá.

As con­ver­sas da hora do cafez­in­ho nas empre­sas giram, na maio­r­ia, em torno do son­ho de tra­bal­har de maneira difer­ente. Isso é utopia? Ou faz sen­ti­do?
É e‑topia, mas fac­tív­el [risos]. Esse é o títu­lo de um livrin­ho bril­hante do arquite­to William Mitchell, que todos os inter­es­sa­dos no futuro do tra­bal­ho e das cidades dev­e­ri­am ler. Eu ten­ho certeza de que vamos redesen­har o modus viven­di e o modus operan­di. Pre­cisamos viv­er e tra­bal­har de for­ma difer­ente. Não há como man­ter o jeito atu­al.

O modo de tra­bal­har ain­da tem a ver com uma época em que os meios de pro­dução eram caros e escas­sos, e era pre­ciso levar as pes­soas até eles. Con­struíram-se cidades para jun­tar gente, primeiro para abaste­cer os work­shops [ofic­i­nas], depois as fábri­c­as, porque, sem mas­sa críti­ca de tra­bal­hadores, não fazia sen­ti­do o inves­ti­men­to na infraestru­tu­ra para pro­duzir algo.

Mas isso está mudan­do rap­i­da­mente. Em uma econo­mia con­tem­porânea típi­ca, entre 80% e 85% das pes­soas já tra­bal­ham em serviços, e ape­nas 15% a 20%, em pro­dução agropecuária ou fab­ril. À medi­da que se autom­a­ti­zam as máquinas e que se pode con­trolá-las de longe, como vem acon­te­cen­do, há uma diminuição sig­ni­fica­ti­va do número de pes­soas necessárias à pro­dução fab­ril ou agropecuária. E os meios de pro­dução no caso dos serviços, inten­sivos em infor­mação, não são nem caros nem escas­sos, o que faz com que eles pos­sam ser “deslo­cal­iza­dos”, em vez de serem cen­tral­izadores –e orde­nadores– do proces­so de pro­dução.

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O meio de pro­dução vai às pes­soas…
Sim, tan­to aos clientes como aos fun­cionários. Exem­p­lo cor­rente são os restau­rantes nos diver­sos bair­ros de uma cidade, con­tratan­do e servin­do a quem está por per­to. Tal tipo de “deslo­cal­iza­ção”, além de mudar as cidades, mod­i­fi­ca a essên­cia de uma orga­ni­za­ção de negó­cios.

Como isso mudou? Tec­nolo­gia?
A infraestru­tu­ra dig­i­tal disponív­el em larga escala quase no mun­do inteiro nos per­mite dis­cu­tir de for­ma muito mais séria como reor­denar o tra­bal­ho e as cidades que foram mon­tadas nos últi­mos 150 anos. Temos de fazê-lo, porque o cus­to de transação para uma pes­soa ir de onde mora aonde tra­bal­ha é astronômi­co, tan­to em preço abso­lu­to, por con­ta dos preços de esta­ciona­men­to, com­bustív­el etc., como em preço de tem­po.

O que vai acon­te­cer? Provavel­mente, em vez de 6 mil pes­soas irem tra­bal­har em um megapré­dio em um lugar, a empre­sa se dividirá em 12 espaços de tra­bal­ho espal­ha­dos pela cidade ou região, cada qual com capaci­dade para 500 pes­soas, para o pes­soal se movi­men­tar menos.

O futuro não é o tra­bal­ho em casa…
Acho que não, até porque mui­ta gente não con­segue tra­bal­har em casa. É pre­ciso poder ter um escritório com­ple­ta­mente sep­a­ra­do, coisa que a grande maio­r­ia não pode ter porque vive em aparta­men­tos de 56 met­ros quadra­dos. Até inventarem aparta­men­tos trans­former, não será pos­sív­el isso [risos].

Há as idioss­in­crasias tam­bém. Eu não con­si­go tra­bal­har com cheiro de comi­da coz­in­han­do, por exem­p­lo. A questão psi­cológ­i­ca talvez seja mais rel­e­vante que a própria bar­reira físi­ca.

Para as empre­sas, o tra­bal­ho dos fun­cionários em casa chegou a ser cog­i­ta­do como parte do proces­so de reen­gen­haria; elas dimin­uíam o espaço alu­ga­do para reduzir cus­to –e as pes­soas
econ­o­mizavam em loco­moção. Mas a ideia já ficou super­a­da.

Mas, como sairá caro faz­er essa redis­tribuição, a maio­r­ia das empre­sas evi­tará fazê-la o máx­i­mo que pud­er, não?
Se essa “deslo­cal­iza­ção” do negó­cio não acon­te­cer em escala, não adi­anta. As empre­sas têm de se redis­tribuir forçadas pelas autori­dades gov­er­na­men­tais, por meio de uma redefinição da políti­ca de ocu­pação das cidades. Há muitos prece­dentes dis­so: a Lon­dres dos anos 1980 era um clus­ter inviáv­el como a São Paulo de hoje, até que a prefeitu­ra criou uma taxa pelo uso da rua por car­ros pri­va­dos na região cen­tral e todo mun­do pri­or­i­zou o trans­porte públi­co, fora as sedes de grandes empre­sas, que se trans­feri­ram para a per­ife­ria.

Imag­ine que, indo para a per­ife­ria, as empre­sas pode­ri­am já se dividir em várias unidades em vez de ir para um lugar úni­co, fazen­do isso vol­un­tari­a­mente, para reduzir o cus­to de transação por fun­cionário, ou incen­ti­vadas por políti­ca gov­er­na­men­tal que encar­eça os espaços maiores.

E surgem novas opor­tu­nidades de empreen­der neste redesen­ho. Empreende­dores podem sair con­stru­in­do espaços de tra­bal­ho comu­nitários, para as empre­sas alu­garem ou para virarem cen­tros de cowork­ing, divi­di­dos por profis­sion­ais autônomos. Assim como se con­stroem shop­ping cen­ters, serão con­struí­dos work cen­ters.

E, de cer­ta maneira, os novos empreendi­men­tos com­pen­sarão, na macro­econo­mia, os cus­tos da mudança… Mas qual a van­tagem das empre­sas?
A redução do estresse talvez não seja men­su­ráv­el ime­di­ata­mente, mas a que­da do cus­to de transação para loco­mover o fun­cionário e o aumen­to de pro­du­tivi­dade serão visíveis logo.

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A comu­ni­cação, o espíri­to de equipe e a con­strução da cul­tura orga­ni­za­cional não se arran­harão com a dis­tân­cia?
Vez por out­ra, ger­entes e fun­cionários pre­cis­arão ter reuniões pres­en­ci­ais para a con­strução de con­fi­ança, sim. Mas sobram evidên­cias de que a exe­cução de serviços, e de tudo que envol­va infor­mação, pre­scinde de pre­sença físi­ca em tem­po inte­gral. Os fun­cionários vão inter­a­gir por redes soci­ais, VoIP [Voice over Inter­net Pro­to­col, como o Skype] e TVIP [TV por inter­net], além dos sis­temas de infor­mação clás­si­cos.

E o espíri­to gregário do ser humano?
Em primeiro lugar, não se tra­ta de tra­bal­har soz­in­ho em casa, mas com out­ras pes­soas em espaços de tra­bal­ho comu­nitários. Um cien­tista inglês já provou que é muito difí­cil con­viv­er com mais de 150 pes­soas. Você con­segue se rela­cionar inti­ma­mente com até 15 pes­soas, 50 são os que você sabe o que estão fazen­do, em um núcleo inter­mediário, e 150 é o maior número de pes­soas que você sabe quem são.

O tra­bal­hador não perderá vis­i­bil­i­dade e chance de pro­moção longe do chefe?
Se tra­bal­has­se em casa, perde­ria. Mas nesse esque­ma de espaços comu­nitários e com muito mais tec­nolo­gias de comu­ni­cação, preser­va-se isso.

Ago­ra, nem que perdesse… de que adi­anta garan­tir vis­i­bil­i­dade se o estresse é tan­to que você pre­cisa de rotas de escape para não enlouque­cer? É por isso que os exec­u­tivos vão faz­er parte de gru­pos como os ado­radores da lua…

É pro­fun­da­mente estres­sante quan­do eu estou em São Paulo, ten­ho um voo mar­ca­do para 9 horas no aero­por­to de Cumbi­ca e, se eu sair às 7 horas, não sei se eu chego, mas, se sair às 6 horas, talvez chegue às 6 e meia e passe duas horas e meia no aero­por­to esperan­do o avião, sem ter o que faz­er.

E, se chove, você está per­di­do…
Topografi­ca­mente falan­do, São Paulo é uma cidade de altos e baixos, onde a inun­dação é, mais ou menos, pre­visív­el.

Isso não é de ago­ra; lem­bro de ter fica­do três horas para­do na Mar­gin­al Tietê em 1977! Mas, se ape­nas 20% das pes­soas depen­dessem de car­ro para ir ao tra­bal­ho e 80% fos­sem a pé, de bike ou ônibus, e para per­to de casa, como nesse novo urban­is­mo “em rede” que acom­pan­haria a mudança do tra­bal­ho, o impacto da chu­va seria mín­i­mo.

Parece tudo muito ade­qua­do para pes­soas qual­i­fi­cadas profis­sion­al­mente. Mas isso não ampli­ará o abis­mo social?
A úni­ca ativi­dade digna do ser humano é a ativi­dade men­tal em que há jul­ga­men­to e toma­da de decisão. A ativi­dade braçal será 100% sub­sti­tuí­da por robô e a ativi­dade men­tal repet­i­ti­va cod­i­ficáv­el, como a da maio­r­ia dos call cen­ters, tam­bém será 100% sub­sti­tuí­da por robô ou soft­ware; é uma questão de tem­po. E, antes de ser sub­sti­tuí­da por um robô, será tro­ca­da por uma mão de obra mais bara­ta. Para ficar no exem­p­lo dos call cen­ters, se Ango­la se orga­ni­zasse para isso, as empre­sas brasileiras pode­ri­am deslo­calizar todo o tra­bal­ho de call cen­ter para lá, em lín­gua por­tugue­sa, e sairia muito mais bara­to.

É per­da de tem­po nadar con­tra esta maré: tudo que pud­er ser sub­sti­tuí­do por tec­nolo­gia o será, cedo ou tarde. O que pre­cisa ser feito é resolver o prob­le­ma cer­to, ou seja, qual­i­ficar as pes­soas maciça­mente, por meio da edu­cação.

Nos anos 80, Charles Handy pro­je­tou um futuro do tra­bal­ho divi­di­do entre agentes livres, as “pul­gas”, e grandes cor­po­rações, os “ele­fantes”, mais favoráv­el aos primeiros, pela própria exper­iên­cia dele, que tro­cou a Shell por inde­pendên­cia. O que você pen­sa dis­so?
Handy errou sobre os ele­fantes e acer­tou sobre as pul­gas. Sabe onde ele errou? O que con­strói ele­fantes é din­heiro e inteligên­cia conec­ta­dos e isso sem­pre exi­s­tirá. Toda vez que alguém desco­brir algu­ma coisa que não foi pro­pri­a­mente inter­pre­ta­da como deman­da, cer­cá-la de inteligên­cia, pro­te­ger esse con­hec­i­men­to na for­ma de pro­du­to, serviço ou patente, e entregá-la a clientes na frente dos out­ros, vai cri­ar um ele­fante. Só muda o ele­fante da vez. Um dia é a Microsoft, noutro o Google, o Twit­ter…

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Você aca­ba de dar a recei­ta para ser ele­fante. Qual é a recei­ta para ser pul­ga?
Gos­to de começar pela definição: a pul­ga, ou agente livre, é alguém que sabe algu­ma coisa e tem a capaci­dade de exe­cu­tar o que sabe sem a inter­me­di­ação de uma infraestru­tu­ra que depen­da de muito cap­i­tal. A pul­ga deve ser essen­cial­mente um colab­o­rador, com habil­i­dades que podem ser definidas em 5 Cs: con­ceitos, capaci­dade, conexões, curiosi­dade –para apren­der sem­pre– e con­fi­ança, tan­to inspi­ran­do con­fi­ança como con­fian­do nos out­ros.

Nun­ca uma pul­ga teve tan­tas opor­tu­nidades como ago­ra. Hoje, se eu desen­ho o con­ceito de um sabonete novo, mes­mo sem ter recur­so disponív­el, con­si­go tê-lo em pro­dução daqui a três meses, porque as cadeias de pro­dução, até as que pro­duzem con­hec­i­men­to, dis­tribuem-se pelo mun­do. E os vários elos podem ser pul­gas espe­cial­izadas.

O que terá menos espaço, talvez, é a empre­sa de médio porte. Se a pul­ga crescer e virar taman­ho médio, vem um ele­fante e a com­pra. Um bom cam­in­ho para pul­gas, hoje, é mon­tar empre­sas do tipo BOSS, acrôn­i­mo em inglês de build, oper­ate and short sell, ou con­strua, opere e ven­da rápi­do. E a sequên­cia é: sell and find a new boss! A pul­ga, depois de vendê-la, mon­ta out­ro negó­cio BOSS.

O que tam­bém tende a acon­te­cer no lon­go pra­zo é o surg­i­men­to mais fre­quente de redes mon­tadas de for­ma ad hoc [tem­po­rari­a­mente] por agentes livres, moti­va­dos por grandes pul­gas ou por ele­fantes, para realizar tra­bal­hos especí­fi­cos. O tra­bal­ho será uma for­ma de esco­la e a rede, uma guil­da, como aque­las da Idade Média, onde quem fará o papel de mestre será o coor­de­nador, o sex­to C na nos­sa lista.

Coor­denar redes é função promis­so­ra?
Sim! Imag­ine uma rede de agentes livres que operem um call cen­ter do tipo em que se tomam decisões. Dá-se um celu­lar gra­tu­ito para cada um e com­bi­na-se que ele tem de tra­bal­har tan­tas horas por dia. E põe-se um coor­de­nador.

E essa onda 2.0 de tra­bal­har gra­tuita­mente? Não é um antip­ul­gas poten­cial?
O free será de livre, mas não de grátis –para que seja sus­ten­táv­el. Se se orga­ni­zar em rede, o agente livre con­seguirá impor uma remu­ner­ação.

Muda o jeito de pen­sar a car­reira, não?
Muda. Por exem­p­lo, vários alunos meus saíram da uni­ver­si­dade para pular den­tro de redes como essa e, de lá, pularam para os ele­fantes, sem faz­er o per­cur­so clás­si­co, estru­tu­ra­do.

Mes­mo quem tra­bal­ha con­trata­do por um ele­fante tem de pen­sar como pul­ga, que fica pulan­do aqui e ali –incluin­do fun­cionário públi­co; já há o con­cur­seiro, aliás. A car­reira e, tam­bém, a for­mação vão ser sis­temas deses­tru­tu­ra­dos, em rede, em que cada um vai sobre­viv­er, em boa parte, em função da sua curiosi­dade, em que ninguém ensi­na ninguém, até porque ninguém sabe o que e quan­do ensi­nar. Sai o sis­tema clás­si­co de for­mação e car­reira, que ade­stra­va pes­soas, e entra um sis­tema de cri­ação de opor­tu­nidades de apren­diza­do, em que a pes­soa expande sua área de ataque a prob­le­mas e cria opor­tu­nidades de desen­volver con­hec­i­men­to sobre ess­es –em função de uma rede de que par­tic­i­pa.

Qual será o papel da inter­net nis­so?
Tudo pas­sará pela inter­net. A edu­cação toda será e‑education; a ciên­cia será e‑science; o tra­bal­ho, e‑work. Tudo poderá ser deslo­cal­iza­do, feito a dis­tân­cia.

Até con­si­go imag­i­nar esse proces­so de “deslo­cal­iza­ção” nas econo­mias “con­tem­porâneas”. Mas no Brasil…
Isso ocorre porque o Brasil ain­da é uma econo­mia fecha­da –as tro­cas com­er­ci­ais brasileiras são cer­ca de 10% do PIB, quan­do, numa Ale­man­ha, elas equiv­alem a 60% do PIB. O Brasil tam­bém tem uma rede region­al muito fra­ca, que são os viz­in­hos sul-amer­i­canos, em está­gio de desen­volvi­men­to ain­da mais precário que o nos­so.

Mas a ideia de pro­te­ger suas fron­teiras para sem­pre não é fac­tív­el. O reor­de­na­men­to já está acon­te­cen­do no plan­e­ta, com a Europa ten­do saí­do na frente na cri­ação da União Europeia. Só não se sabe quan­to tem­po vai levar. Mas se for um sécu­lo, pouco impor­ta. Den­tro de 15 mil anos de vida inteligente orga­ni­za­da, mais ou menos, des­de a agri­cul­tura, 100 anos não é nada!

A tran­sição do Brasil para esse novo modo de tra­bal­ho será mais dolorosa…
Se doerá mais no Brasil? Pos­sivel­mente. Além dessas razões que eu citei, temos exces­so de reg­u­la­men­tação –não só na área tra­bal­hista, onde se fica crian­do mais reg­u­la­men­tações cada dia em vez de desreg­u­la­men­tar, mas em toda parte, porque somos um país car­to­r­i­al, em que os inter­ess­es de gru­pos são tomba­dos. E tam­bém nos­so prob­le­ma edu­ca­cional é gigan­tesco. Saber pro­gra­mar será no futuro como saber escr­ev­er hoje. E muitos ain­da mal sabem escr­ev­er. Para pio­rar, divul­gou-se recen­te­mente a que­da do número de matrícu­las e da quan­ti­dade de estu­dantes que sobre­vivem à 5a série.

Tra­bal­ho é a soma de edu­cação com opor­tu­nidade. Se não temos edu­cação, as opor­tu­nidades não poderão ser aproveitadas. É o que ocorre ago­ra: as empre­sas recla­mam que “fal­ta gente”.

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Como dev­e­ria mudar a edu­cação?
O ensi­no clás­si­co é, por assim diz­er, new­to­ni­ano. Parte do princí­pio de que, se você estru­tu­rar o con­hec­i­men­to de uma área orga­ni­zada­mente, quem hou­ver pas­sa­do por aque­le proces­so de apren­diza­do pode saber tudo.

Temos de migrar para um mod­e­lo de esco­la mais dar­wini­ano, que não esta­beleça, a pri­ori, fun­da­men­tos para nada; ele deve faz­er, de todos, apren­dizes que des­cubram o prob­le­ma a ser resolvi­do e criem a solução, ao mes­mo tem­po que des­cubram, desen­volvam, apren­dam e reapren­dam o con­hec­i­men­to necessário. Ensi­na-se com base em prob­le­mas em vez de se estar pre­so a uma grade cur­ric­u­lar.

Lem­bra o apren­diza­do de dup­lo loop, do Chris Argyris, de Har­vard. Há esco­las adotan­do esse méto­do de ensi­no no Brasil?
O C.E.S.A.R. é uma delas, a esco­la de med­i­c­i­na da Fac­ul­dade Per­nam­bu­cana de Med­i­c­i­na (FPM), em Recife, Uni­ver­si­dade Fed­er­al do ABC, em São Paulo… Na FPM, em vez de começarem por aulas de anato­mia, os alunos vão para o pos­to de saúde da família, na per­ife­ria, na primeira sem­ana de aula, para ver o que é doença e do que a pop­u­lação adoece. Do proces­so de ensi­no clás­si­co, muda-se para o apren­diza­do basea­do em prob­le­ma, o prob­lem based learn­ing.

Mas não é espe­cial­iza­ção demais?
Não, se você par­tir do princí­pio de que o proces­so de apren­der é con­tín­uo, assim como tra­bal­har é. Temos, isto sim, de cri­ar mecan­is­mos de incen­ti­vo e com­pen­sação para que a pes­soa que tra­bal­ha não pare de apren­der.

A urgên­cia da questão climáti­ca nos fará acel­er­ar a mudança do tra­bal­ho?
Acho que sim. As cidades são os grandes polos ger­adores de poluição, o que decorre em grande parte do modo como se tra­bal­ha [leia mais no quadro da pági­na ao lado]. Fora isso, cada um tem de faz­er seu plano de car­bono zero. Eu estou fazen­do o meu, indo de bici­cle­ta para o tra­bal­ho –gas­to um pouco menos de tem­po do que de car­ro, aliás–, plan­tan­do árvores e, este ano, começarei a dar aulas por video­con­fer­ên­cia quan­do chover demais em Recife.

Fonte:http://bit.ly/1LuJC5Q

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