Escola e inovação educacional no novo mundo do trabalho

Em um pro­je­to con­tem­porâ­neo de esco­la, o con­ceito de “Aula” é prob­lemáti­co, na medi­da em que apos­ta em metá­foras de trans­mis­são de infor­mações e retenção de apren­diza­gem, inde­fen­sáveis do pon­to de vista dos estu­dos cien­tí­fi­cos mais atu­ais sobre o desen­volvi­men­to humano.
Ape­sar dis­so, a esco­la é um espaço vital de manutenção da cul­tura e con­strução da vida cotid­i­ana, por­tan­to instru­men­to fun­da­men­tal de atração e for­t­alec­i­men­to da comu­nidade, da escu­ta de seus dese­jos e feed­back para suas deman­das.

O pro­fes­sor não é, por sua natureza, resistente a mudanças

Con­ta-se mali­ciosa­mente que, via­jantes no tem­po des­de o séc. XIX, médi­cos se sen­tiri­am inúteis numa sala de cirur­gia atu­al, enquan­to pro­fes­sores ori­un­dos da mes­ma época ficari­am muito con­fortáveis nas salas de aula. Essa nar­ra­ti­va é mal inten­ciona­da e esconde o papel da sociedade, das empre­sas e do Esta­do na história dos hos­pi­tais e das esco­las. Esconde, em par­tic­u­lar, o quão rara­mente essas insti­tu­ições se lançaram inten­cional­mente no redesen­ho da esco­la, em code­sign com pro­fes­sores e alunos, tan­to quan­to o fiz­er­am no redesen­ho da med­i­c­i­na e dos artefatos médi­cos.
Por out­ro lado, pre­cisamos for­t­ale­cer a imagem do pro­fes­sor enquan­to empreende­dor da mudança, metaforizan­do a sala de aula como uma start­up (sem flux­os de caixa, claro!) e os alunos como os colab­o­radores e pro­tag­o­nistas da mis­são da esco­la: A cri­ação de cenários de apren­diza­gem.

A mudança será hiper­local e a ino­vação encap­su­la­da em um movi­men­to sus­ten­táv­el

Como no “jor­nal­is­mo hiper­local”, que bus­ca val­orizar a novi­dade e a auto­ria a par­tir de micror­regiões da cidade, a apos­ta da ino­vação edu­ca­cional dev­e­ria ser tam­bém no pro­tag­o­nis­mo dos jovens e seus pro­fes­sores para a mudança real­iza­da a par­tir da própria esco­la, como no movi­men­to de ocu­pação das esco­las de ensi­no médio da rede públi­ca de São Paulo em 2015. Nesse sen­ti­do, talvez tam­bém seja necessário guardar cer­ta inde­pendên­cia e mes­mo des­obe­diên­cia em relação às leis e nor­mas com­ple­mentares con­stan­te­mente reed­i­tadas.
Por out­ro lado, “encap­su­lar a ino­vação” sig­nifi­ca ser capaz de trans­for­mar a real­i­dade em parce­las sus­ten­táveis e cres­cen­te­mente escaláveis, seja na for­ma de práti­cas didáti­cas ino­vado­ras ou de uma gestão que acol­he e ampli­fi­ca os pro­tag­o­nis­mos de estu­dantes e pro­fes­sores.

 O cen­tro da edu­cação não é o aluno, mas a con­strução de relações entre alunos e pro­fes­sores

É impor­tante recon­hecer o lugar históri­co da cen­tral­i­dade do aluno nos proces­sos edu­ca­cionais na esco­la, como uma reação ao império do con­teú­do, pre­sente em movi­men­tos como a “Matemáti­ca Mod­er­na” dos anos 70.
Mas, a apren­diza­gem é um ato dialógi­co e intera­cional, afe­ti­va­mente moti­va­do, no qual práti­cas como a imag­i­nação, a cria­tivi­dade, a argu­men­tação e a reflexão são aspec­tos cen­trais e com­par­til­ha­dos entre os diver­sos atores pre­sentes na esco­la. Assim, a própria existên­cia do ato edu­ca­cional se sus­ten­ta fun­da­men­tal­mente na con­strução de relações entre pro­fes­sores e alunos, sendo pref­er­en­cial­mente, relações de empa­tia e aprox­i­mação.

 As esco­las são espaços de auto­ria, propí­cios à imple­men­tação de práti­cas de for­mação ino­vado­ra de pro­fes­sores!

A mudança deve seguir na direção de mais auto­ria e par­tic­i­pação social. Dois pro­je­tos para os quais con­tribuí recen­te­mente mostram a via­bil­i­dade e poder de per­spec­ti­vas nes­sa direção. O pro­je­to Pro­fes­sor Autor é um con­cur­so de auto­ria de “aulas”, no qual pro­fes­sores da rede públi­ca com­petem pela sub­mis­são das mel­hores apre­sen­tações de con­teú­dos acadêmi­cos em mul­ti­mí­dia. O LED (Lab­o­ratório de Exper­i­men­tações Didáti­cas) foi inspi­ra­do no Start­up Week­end e gan­hou vida como um even­to para enga­jar edu­cadores na cri­ação colab­o­ra­ti­va e exper­i­men­tação de soluções didáti­cas e arran­jos soci­ais ino­vadores para a esco­la.

 O desafio: trans­for­mar as esco­las em “mak­er spaces” da pro­dução de práti­cas e artefatos didáti­cos ricos em sig­nifi­ca­do

A esco­la ain­da está estru­tu­ra­da sobre cur­rícu­los inten­sivos em con­teú­dos, fre­quente­mente estran­hos e/ou sem sig­nifi­ca­do para as cri­anças e pro­fes­sores, espe­cial­mente se levar­mos em con­ta o mun­do do tra­bal­ho. Ao mes­mo tem­po, encon­tramos na esco­la quase nen­hu­ma abor­dagem emo­cional, por exem­p­lo, ten­do em vista o desen­volvi­men­to de com­petên­cias como resil­iên­cia e lid­er­ança, ago­ra lem­bradas na nova Base Nacional Cur­ric­u­lar Comum. Uma esco­la Mak­er é ino­vado­ra porque tem foco no desen­volvi­men­to de com­petên­cias que pas­seiam por exem­p­lo, do pen­sa­men­to com­puta­cional ao pen­sa­men­to críti­co, da inteligên­cia social ao design mind­set.

 Depois do Prob­lem Based Learn­ing (PBL), o Imag­i­na­tion Based Learn­ing (IBL) conec­ta­do ao dinâmi­co e mutante mun­do do tra­bal­ho

Em con­sonân­cia com a ideia de encap­su­lar a ino­vação, pre­cisamos pro­toti­par a mudança. Por exem­p­lo, podemos exper­i­men­tar com pro­gra­mas de econo­mia cria­ti­va e pen­sa­men­to com­puta­cional nas esco­las, com foco no mun­do do tra­bal­ho, val­orizan­do as tradições e com­petên­cias das comu­nidades locais.
A econo­mia cria­ti­va cap­tura hoje 22% dos tra­bal­hadores for­mais do Brasil e con­tribui com cer­ca de 17% do pro­du­to inter­no bru­to (PIB) do país, com avanço esti­ma­do de 70% nos últi­mos dez anos, con­tra 36% de cresci­men­to do PIB total. No entan­to, ape­nas 3% dos estu­dantes fazem algum tipo de está­gio que lhes dão a práti­ca de algum tipo de ambi­ente profis­sion­al.
Vale a pena ensa­iar estraté­gias mais com­plexas de inter­seção entre esco­la e tra­bal­ho, num cam­po como a econo­mia cria­ti­va, fun­da­da em práti­cas imag­i­na­ti­vas e de ino­vação, a fim de gan­har­mos con­hec­i­men­to e escala para out­ros domínios.

Provo­cações Finais

Edu­cadores e ped­a­go­gos não serão sufi­cientes para desen­har a mudança; dev­eríamos envolver out­ros profis­sion­ais, como design­ers, engen­heiros e Doutores da Ale­gria, por exem­p­lo, para pen­sar os prob­le­mas da esco­la e desen­volver soluções.
Não depen­damos tão forte­mente dos leg­is­ladores; algu­ma dose de des­obe­diên­cia civ­il pode ser necessária em proces­sos de ino­vação.
Os jovens não são o prob­le­ma, mas parte da solução. Con­stru­ir um dis­cur­so sobre o jovem que não o envolve como coau­tor, e ain­da iden­ti­ficá-lo como “nem-nem”, me parece uma práti­ca exclu­dente e larga­mente inad­e­qua­da para quem dese­jamos traz­er como par­ceiros da trans­for­mação.
Movi­men­tos soci­ais com­plex­os, descen­tral­iza­dos e dis­tribuí­dos, a exem­p­lo dos Alcoóli­cos Anôn­i­mos (AA), exis­tem em todos os lugares e aju­dam as pes­soas quan­do mais pre­cisam. Vamos trans­for­mar a edu­cação num movi­men­to social!

Por Luciano meira

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